A busca por um equilíbrio econômico-financeiro nos setores de saúde pública e privada emerge como um dos principais desafios no cenário brasileiro. Considerada uma das três maiores preocupações da população, a saúde enfrenta pressões de diversas frentes, desde a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS) até os custos elevados e a concorrência acirrada no segmento suplementar. Enquanto o SUS atende a aproximadamente 75% dos brasileiros, a saúde suplementar engloba cerca de 53 milhões de usuários de planos médico-hospitalares, cada qual com suas particularidades e demandas financeiras.
O financiamento do Sistema Único de Saúde tem sido um ponto de atenção crucial. Para o ano de 2026, o orçamento previsto para Ações e Serviços Públicos em Saúde (ASPS) é de R$ 254 bilhões, o que representa um aumento de cerca de 82% em relação ao piso de 2022. Essa expansão ocorre após a substituição da Emenda Constitucional 95, conhecida como teto de gastos, que, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), subtraiu R$ 64,8 bilhões em recursos reais do SUS entre 2018 e 2022. A partir de 2023, com o novo arcabouço fiscal, o setor retomou o piso constitucional de 15% da Receita Corrente Líquida (RCL) da União.
Saúde Pública e Privada Buscam Equilíbrio Financeiro
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que o orçamento de 2026 já se inicia acima do piso mínimo e ressaltou a importância da colaboração de estados e municípios. Infelizmente, nem todos os estados aplicam o mínimo constitucional de 12% de sua arrecadação em saúde, e os municípios devem destinar 15%. A prioridade do ministério é o programa “Agora tem Especialistas”, visando reduzir as longas filas por cirurgias, exames e consultas especializadas, represadas pela pandemia de COVID-19 em 2020. Além disso, a atenção primária, responsável por resolver aproximadamente 85% dos problemas de saúde, foi expandida, com o número de equipes de saúde da família saltando de 48 mil em 2022 para 65 mil, com inclusão de telessaúde. A tecnologia também tem sido uma aliada, com 80% das equipes utilizando prontuários eletrônicos do ministério e o CPF servindo como número do cartão SUS, o que facilita o cruzamento de dados para um planejamento mais eficiente.
Especialistas levantam importantes questionamentos sobre o financiamento da saúde pública. José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde, expressou preocupação com o impacto de governos conservadores na capacidade financeira do SUS, um cenário que as eleições poderiam reacender. Ele critica o atual arcabouço fiscal, o pagamento de juros da dívida interna e as emendas parlamentares, que, em sua visão, limitam a participação dos gastos públicos na saúde. Temporão também sugere uma revisão ou extinção de subsídios ao setor privado, como as deduções de despesas com planos de saúde no Imposto de Renda, ou a imposição de um teto para esses abatimentos, defendendo a medida como crucial para o financiamento do SUS.
A professora Erika Aragão, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), complementa, apontando que o Brasil destina proporcionalmente menos recursos públicos à saúde (4,3% do PIB em 2024) do que outros países com sistemas universais, como a Espanha, que alcança cerca de 7% do PIB, conforme relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado em 2025. O estudo da OCDE também revela que as despesas privadas no Brasil representaram 5,1% do PIB, totalizando 9,4% dos gastos em saúde. Aragão avalia que o piso de 15% da RCL é um patamar mínimo, mas sua dependência da arrecadação o torna vulnerável em períodos de recessão, sugerindo a vinculação de recursos a indicadores de demanda, como o percentual da população idosa.
Francisco Funcia, presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABrEs), corrobora a visão de que a predominância do setor privado nos gastos totais não se traduz em saúde coletiva, defendendo uma inversão dessa equação, com os gastos públicos superando os privados. Ele argumenta que o setor privado é direcionado para aqueles com poder de compra e que a recomposição de verbas para a saúde pública passa por uma revisão da política monetária, da taxa de juros e dos subsídios fiscais. Apesar dos desafios financeiros, o SUS, reconhecido como o maior sistema universal do mundo, com mais de 100 milhões de usuários, continua sendo uma força de mercado capaz de impulsionar o desenvolvimento tecnológico. As compras anuais de equipamentos e medicamentos chegam a R$ 20 bilhões, com grande parte sendo destinada à importação de insumos.
Para fortalecer a soberania e internalizar tecnologias, o governo tem expandido as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), que estimulam o Complexo Econômico e Industrial da Saúde (CEIS). A meta é produzir internamente 70% das necessidades de medicamentos, vacinas, equipamentos e outros insumos até 2033, percentual que hoje se situa em 45%. O ministro Padilha anunciou novas chamadas públicas para diagnósticos e dispositivos médicos ainda este ano. As 96 PDPs em vigor focam em componentes sintéticos, biotecnológicos e vacinas, como a vacina contra a bronquiolite, que chegou ao SUS no fim de 2025. Outra iniciativa de ponta é o Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T na Fiocruz, lançado em maio, que permitirá a fabricação nacional de terapias celulares a preços acessíveis para pacientes com leucemia, linfoma e mieloma, com os primeiros lotes-piloto previstos para julho.
O setor público também conta com o Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS), criado em 2024 e gerido pelo BNDES, que em dezembro passado habilitou 997 projetos de saúde, totalizando R$ 18,4 bilhões. As obras incluem 541 Unidades Básicas de Saúde, 212 Centros de Atenção Psicossocial (Caps), 74 policlínicas e Centros de Reabilitação (CERs), 37 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), e oito maternidades, entre outras. O BNDES oferece linhas de crédito específicas para o setor de saúde, algumas vinculadas a programas governamentais como o Brasil Soberano, visando diminuir a dependência internacional, conforme apontado por José Luís Gordon, diretor de desenvolvimento produtivo, inovação e comércio exterior do banco.
Na saúde suplementar, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) está consolidando sua agenda regulatória para 2026-2028, com foco na sustentabilidade do sistema. O presidente da ANS, Wadih Damous, destacou quatro medidas prioritárias: a ampliação do pool de risco (agrupamento de contratos coletivos) de 29 para 400 vidas, visto que cerca de 85% dos planos são coletivos; o fim da proibição da rescisão unilateral de contratos baseada em seleção de risco; a ampliação e simplificação da portabilidade; e a limitação da coparticipação em 30% do valor do procedimento. A ANS também busca tornar o processo de incorporação de tecnologias mais previsível e tecnicamente robusto, desenvolvendo um limiar de custo-efetividade próprio em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para decisões baseadas em evidências.

Imagem: Brenno Carvalho via valor.globo.com
Financeiramente, as operadoras médico-hospitalares registraram lucro líquido de R$ 6 bilhões no primeiro trimestre de 2026, uma queda em relação aos R$ 6,9 bilhões do mesmo período de 2025, atribuída a fatores atípicos, como o provisionamento de recursos de uma grande operadora. O resultado operacional agregado, contudo, foi positivo em R$ 3,4 bilhões, com a sinistralidade atingindo 81%, 1,8 ponto percentual acima do ano anterior. Damous enfatiza a necessidade de focar na eficiência clínica e na Atenção Primária à Saúde (APS) para reduzir agravamentos e custos, defendendo que a saúde suplementar deve se reorganizar em torno do paciente, deixando de ser um “balcão de procedimentos” e valorizando os resultados clínicos.
Carlos Ocké, economista e ex-assessor da presidência da ANS, defende que as regras do mercado de planos devem seguir quatro princípios: defesa do consumidor, concorrência regulada, qualidade e ética nos serviços, e interesse público para não prejudicar o SUS. Ele alerta que a busca por lucros extraordinários gera judicialização e um aumento explosivo de reclamações. Gustavo Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), ressalta que a regulação precisa se adaptar ao envelhecimento populacional e às inovações médicas, mencionando que o setor é pressionado pelo maior uso dos planos, judicialização e a incorporação de novas tecnologias. Ele destaca que o cenário é particularmente difícil para operadoras de pequeno e médio porte, com menor capacidade de absorver oscilações financeiras.
Bruno Sobral, diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), defende o aperfeiçoamento do processo de incorporação de tecnologias, registro e precificação de medicamentos. O controle de preços dos planos individuais e o fortalecimento da mediação administrativa de conflitos são vistos como relevantes para a agenda. Para Sobral, o equilíbrio da saúde suplementar virá do aprofundamento de modelos de pagamento baseados em valor, do uso responsável da inteligência artificial, da maior interoperabilidade de dados e de uma maior liberdade econômica no desenho de produtos e preços. Ele projeta um crescimento de 1,1% a 2% no número de beneficiários em 2026, atrelado ao mercado de trabalho formal e à capacidade das operadoras de oferecer produtos acessíveis.
Marcos Trofino, sócio da PwC Brasil, aponta tendências globais na transformação da saúde: a centralidade no paciente, buscando conveniência, eficiência e transparência; a expansão do uso de inteligência artificial e analytics, com parcerias na indústria farmacêutica e healthtechs; a integração de tecnologia e dados, gerando insights de dispositivos móveis; e a formação de ecossistemas de saúde, com maior colaboração entre operadoras, hospitais e empresas de tecnologia, ampliando o acesso e criando novos modelos de negócio. Essas tendências moldam o futuro do setor, indicando caminhos para a sustentabilidade e aprimoramento dos serviços. A complexidade do sistema de saúde brasileiro exige uma abordagem multifacetada, combinando políticas públicas robustas, inovações tecnológicas e uma regulação atenta às dinâmicas do mercado para garantir a saúde da população.
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Em síntese, os setores de saúde pública e privada no Brasil enfrentam uma intrincada teia de desafios econômico-financeiros, demandando estratégias inovadoras e colaborativas. Desde o reforço do financiamento do SUS e a otimização de programas ministeriais, até a reestruturação regulatória da saúde suplementar e a incorporação de tecnologias avançadas, o caminho para o equilíbrio é complexo. As perspectivas de especialistas e as tendências globais apontam para a necessidade de um sistema centrado no paciente, mais eficiente e com maior integração de dados e inteligência artificial. Para aprofundar-se em outros temas relevantes para a economia do país, continue acompanhando nossa editoria de Economia.
Foto: Arte/Valor







