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ONG Aponta Marrocos por Desespero em Crise Migratória

Internacional

A crise migratória que impulsionou mais de 50 mil indivíduos em direção a Ceuta e Melilla, enclaves espanhóis localizados no continente africano, tem o Estado do Marrocos como principal responsável, segundo a Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH). A organização expressou profunda preocupação com a situação, que resultou na morte de quase 100 pessoas durante a travessia, conforme dados reportados pelo governo de Ceuta.

De acordo com a AMDH, a ausência de perspectivas futuras para os cidadãos e a intensificação dos sentimentos de frustração e desesperança, particularmente entre os jovens, transcenderam o âmbito individual e se transformaram na marca identitária de uma geração inteira. Para esses indivíduos, a migração e o anseio por emigrar emergiram como uma forma de protesto contra o que consideram o fracasso das políticas estatais marroquinas.

ONG Aponta Marrocos por Desespero em Crise Migratória

O posicionamento da AMDH foi formalmente aprovado pelo seu Bureau Central, reforçando a seriedade das acusações. A entidade é reconhecida como uma das mais significativas e influentes no Marrocos quando o assunto são os direitos humanos, conferindo peso considerável às suas declarações. A associação tece críticas severas à desigualdade social e à distribuição da riqueza, classificando-a como injusta. Para a AMDH, um pequeno grupo se apropria dos recursos do país por meio de uma “economia rentista, da corrupção, do autoritarismo e da tirania”.

A organização não governamental classifica o fenômeno migratório como a manifestação flagrante de uma crise estrutural profunda, que seria o ápice de décadas de marginalização tanto social quanto econômica. Além disso, a AMDH condenou abertamente a utilização da crise migratória como ferramenta de pressão política ou de barganha em negociações com a Espanha ou a União Europeia, argumentando que as pessoas não deveriam ser envolvidas em jogos políticos e diplomáticos em detrimento de seus direitos fundamentais.

A Visão de Especialistas e o Silêncio Estatal

Especialistas consultados pela Agência Brasil apresentaram opiniões divergentes sobre a possível anuência do governo marroquino na crise imigratória em Ceuta, sugerindo que tal cenário poderia ser explorado para obter vantagens políticas junto a países europeus. Paralelamente, a organização de direitos humanos marroquina também lançou críticas sobre o que chamou de “silêncio suspeito” das instituições estatais do Marrocos, um fator que teria fortalecido um estado de mobilização generalizada em diversas cidades e regiões do país.

A AMDH também não poupou críticas à escalada retórica observada na Europa e nos Estados Unidos (EUA), atribuindo-a à extrema-direita. Segundo a associação, essa corrente política incita o ódio contra os imigrantes, os quais são retratados como uma ameaça existencial às sociedades e nações ocidentais, contribuindo para um ambiente hostil e estigmatizante.

O Marrocos é uma monarquia constitucional e parlamentar, cuja estrutura é moldada pela tradição islâmica. O sistema político combina instituições democráticas modernas com o forte controle da dinastia alauíta, liderada pelo Rei Mohammed VI. O monarca, que completou 27 anos no trono no último dia 29 de julho, é o comandante supremo das forças armadas e uma figura central na política marroquina, exercendo influência decisiva nas questões nacionais e internacionais.

Juventude e o Projeto de Desenvolvimento Marroquino

Mohammed Nadir, professor marroquino de relações internacionais da Universidade Federal do ABC paulista (UFABC), destacou à Agência Brasil que o êxodo em massa de jovens em direção a Ceuta e Melilla expôs de forma contundente as falhas do projeto de desenvolvimento nacional implementado nos últimos anos. Ele reconheceu que o país passou por um processo de modernização e crescimento significativo em termos de infraestrutura e grandes empreendimentos, liderados pelo próprio Rei Mohammed VI.

Entre os avanços citados pelo professor, estão a construção de milhares de quilômetros de autoestradas, investimentos em energias renováveis e o desenvolvimento das indústrias automotiva e aeronáutica, que transformaram o Marrocos em um importante polo internacional no Norte da África. Contudo, o professor Nadir, que estava visitando o Marrocos durante o período da crise, observou que essas transformações estruturais não se traduziram em melhorias substanciais para a maioria da população marroquina, que é predominantemente jovem.

ONG Aponta Marrocos por Desespero em Crise Migratória - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

A realidade percebida nas ruas, conforme Nadir, é de um profundo mal-estar social. A população enfrenta um aumento significativo no custo de vida, escassez de oportunidades de emprego e grandes dificuldades no acesso à saúde pública. Esse conjunto de fatores, segundo o especialista, alimenta o sonho de emigrar para a Europa em busca de uma vida melhor, evidenciando uma desconexão entre o desenvolvimento macroeconômico e a qualidade de vida dos cidadãos.

A Visão do Rei Mohammed VI sobre o Desenvolvimento

Em meio à crise de imigração em Ceuta, o Rei Mohammed VI, ao comemorar seu 27º aniversário como monarca do Marrocos, divulgou uma mensagem à nação para enaltecer as conquistas estatais recentes. Em seu discurso, o Rei afirmou que o país está em um “momento crucial do seu processo de desenvolvimento, onde um ideal de confiança e otimismo deve prevalecer sobre qualquer retórica que possa alimentar o desespero e a frustração”.

O monarca também expressou orgulho pela segurança e estabilidade que prevalecem no Marrocos, bem como pelo funcionamento eficaz das instituições públicas. Ele citou ainda a projeção de um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente 4,9% em 2025, um dado que, na sua perspectiva, reflete a pujança econômica do país. Mohammed VI argumentou que o Marrocos se consolidou como o principal exportador automotivo da África, com uma capacidade de produção anual de cerca de 1 milhão de veículos.

Consequentemente, a participação dos setores automotivo e aeroespacial nas exportações totais do Marrocos, conforme o Rei, elevou-se para mais de 40%, superando a tradicional indústria de fosfato. Apesar dos avanços econômicos destacados, dados das Nações Unidas (ONU) de 2023 indicam que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Marrocos foi de 0,71. Isso o coloca na categoria de alto desenvolvimento humano, ocupando a 120ª posição entre 193 países e territórios. No contexto africano, o Marrocos figura como o 10º maior IDH, atrás de nações como África do Sul, Egito, Argélia e Tunísia. A taxa de desemprego entre a população jovem, de 15 a 24 anos, alcançou 24,9% em 2022, sublinhando o desafio de integrar essa parcela da população no mercado de trabalho.

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Este panorama complexo do Marrocos, que mescla avanços econômicos e desafios sociais profundos, demonstra a urgência de políticas que enderecem as causas da crise migratória. Para mais análises sobre política e economia global, continue acompanhando as notícias em nossa editoria de Política.

Crédito da imagem: REUTERS/Jon Nazca/ Proibido reprodução

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