A discussão sobre os efeitos adversos de medicamentos amplamente utilizados como o Ozempic e o Wegovy ganha um novo capítulo com a decisão de indenização a pacientes por doença ocular na Dinamarca. Quatro indivíduos foram ressarcidos por terem desenvolvido uma condição oftalmológica grave após o uso das canetas injetáveis destinadas ao tratamento de diabetes e obesidade. A notícia, que vem do país sede da farmacêutica Novo Nordisk, fabricante dos produtos, destaca a crescente atenção sobre os riscos associados à semaglutida e a complexidade de sua avaliação.
Originalmente, um grupo de 43 pacientes na Dinamarca apresentou pedidos de indenização, alegando ter sofrido de uma doença ocular séria como efeito colateral do Ozempic e do Wegovy. O Conselho de Compensação de Pacientes, uma autoridade independente encarregada de analisar tais casos, avaliou cinco dessas solicitações. Deste total, um dos pedidos foi arquivado, enquanto os outros quatro tiveram seu direito à indenização reconhecido e concedido na última sexta-feira, dia 21 de junho.
Pacientes Recebem Indenização por Doença Ocular de Ozempic
Os pacientes indenizados foram diagnosticados com neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, mais conhecida pela sigla NOIA-NA. Esta condição representa uma enfermidade ocular grave que figura entre as principais causas de cegueira ou comprometimento severo da visão em adultos. A NOIA-NA caracteriza-se por um dano ao nervo óptico, fundamental para a transmissão de informações visuais do olho para o cérebro, e pode resultar em perdas visuais permanentes e irreversíveis. A gravidade da condição exige um olhar atento da comunidade médica e dos reguladores de saúde.
É importante salientar que a NOIA-NA como um efeito colateral do uso de medicamentos contendo semaglutida, como o Wegovy, Ozempic e Rybelsus, é considerada extremamente rara. Segundo dados da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), a incidência estatística dessa condição em decorrência da semaglutida é de menos de 1 em cada 10.000 pacientes. Apesar da baixa probabilidade, a gravidade dos impactos para os afetados é indiscutível e justifica a atenção regulatória e as ações de compensação.
As indenizações foram efetuadas pelo Conselho Dinamarquês de Compensação de Pacientes, um órgão autônomo e independente cuja função primordial é determinar se indivíduos têm direito a reparação financeira após sofrerem lesões decorrentes de tratamentos de saúde ou de efeitos colaterais severos de medicamentos. Essa estrutura assegura uma avaliação imparcial e baseada em critérios específicos para cada caso, garantindo a proteção dos direitos dos pacientes.
O valor total concedido aos quatro pacientes foi de 800 mil coroas dinamarquesas, o equivalente a aproximadamente R$ 664,8 mil, considerando as taxas de câmbio atuais. Contudo, essa quantia inicial pode ser revista e ampliada. A legislação dinamarquesa prevê um aumento da indenização caso seja comprovado que a NOIA-NA impediu os pacientes de exercerem suas atividades profissionais no mesmo patamar anterior à doença, gerando assim uma perda significativa de renda. Esse mecanismo visa compensar não apenas o dano físico, mas também suas consequências econômicas e sociais a longo prazo.
O processo de avaliação das indenizações é minucioso e realizado individualmente, levando em conta todas as particularidades de cada ocorrência. A legislação dinamarquesa exige que haja uma comprovação de que é “extremamente provável” que o medicamento seja a causa direta da doença pela qual o paciente busca ressarcimento. No contexto da NOIA-NA após a utilização de Wegovy ou Ozempic, essa exigência implica que a compensação não pode ser concedida se o problema ocular se manifestar um longo período após o paciente ter interrompido o uso do medicamento, indicando a necessidade de uma relação temporal clara e robusta entre o uso do fármaco e o desenvolvimento da condição.
Karen-Inger Bast, diretora de Compensação ao Paciente, expressou em nota o lamento pelos pacientes atingidos por esse efeito colateral. Ela destacou a gravidade intrínseca da NOIA-NA, que provoca danos permanentes e incuráveis à visão, alterando drasticamente a qualidade de vida dos afetados. Além disso, a diretora ressaltou a complexidade na avaliação desses casos, especialmente por envolverem medicamentos relativamente recentes no mercado e porque os pacientes já se inseriam em um grupo de risco preexistente para o desenvolvimento da NOIA-NA. A expertise de especialistas em nervo óptico tem sido crucial para a definição da conduta correta nestas situações, na busca por decisões mais rápidas e justas, que atendam às necessidades dos pacientes sem comprometer a rigorosidade científica e legal.
Pesquisas na área, mencionadas pelo próprio órgão dinamarquês, sugerem que não há um aumento no risco de desenvolver NOIA-NA se o paciente já utilizou Wegovy ou Ozempic por um período superior a 14 meses sem manifestar a doença ocular grave. Essa informação é vital para pacientes de longa data e para a comunidade médica, fornecendo um parâmetro temporal sobre o risco potencial e auxiliando na gestão de expectativas e no monitoramento clínico de longo prazo.
A preocupação com os efeitos oftalmológicos da semaglutida não é nova na comunidade científica. Em um estudo publicado na renomada revista científica JAMA Ophthalmology no final de janeiro, pesquisadores detalharam nove casos de pacientes que desenvolveram problemas oculares após o uso de semaglutida e tirzepatida, conforme veiculado pelo jornal Estadão. Essas descobertas iniciais reforçam a necessidade contínua de vigilância farmacológica e de aprofundamento nas pesquisas sobre a segurança a longo prazo desses compostos, que têm se tornado cada vez mais populares.

Imagem: infomoney.com.br
No ano de 2024, outro estudo científico apontou uma possível relação entre o uso de semaglutida e um risco elevado de derrame ocular. Esse achado motivou a Academia Americana de Oftalmologia (AAO) e a Sociedade Norte-Americana de Neuro-Oftalmologia (NAAO) a emitirem uma nota conjunta. Nela, as entidades informaram que a comunidade médica já estava ciente das alterações na visão associadas à semaglutida há algum tempo, indicando uma preocupação contínua e um monitoramento ativo da questão por parte das principais organizações oftalmológicas.
Apesar de reconhecerem as preocupações e os relatos de casos, a AAO e a NAAO não emitiram uma contraindicação formal para o uso dos medicamentos que contêm semaglutida. Contudo, as entidades orientaram enfaticamente que os pacientes que apresentassem qualquer alteração na visão durante o tratamento interrompessem imediatamente o uso da medicação e procurassem um médico para uma avaliação aprofundada. Essa recomendação visa garantir a segurança dos pacientes enquanto mais dados são coletados e analisados por meio de estudos controlados e de longo prazo.
Em entrevista ao Estadão, o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), sublinhou a urgência de conduzir estudos mais detalhados e controlados. O objetivo primordial seria avaliar o impacto desses medicamentos na saúde ocular em longo prazo, esclarecendo definitivamente se existe uma relação direta de causa e efeito entre o uso de semaglutida e os potenciais prejuízos visuais. Até o momento, essa relação ainda não está totalmente estabelecida, demandando investigações rigorosas e abrangentes.
O Dr. Couri também elucidou um aspecto fisiológico relevante que pode complicar a análise de causalidade: a semaglutida e a tirzepatida são conhecidas por promoverem uma redução rápida e significativa dos níveis de glicose no sangue. Ele explicou que, há décadas, a comunidade médica sabe que, em indivíduos com um descontrole glicêmico acentuado, esse efeito de rápida queda da glicose pode, por si só, acarretar riscos de reações oculares adversas. Este contexto é crucial para entender a complexidade da avaliação de causalidade em pacientes que já possuem condições de saúde preexistentes, como o diabetes.
Refletindo a crescente evidência e as preocupações levantadas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tomou uma medida importante em junho. O órgão regulador brasileiro determinou a inclusão da neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA-NA) como uma reação adversa “muito rara” nas bulas de todos os medicamentos que contêm semaglutida. Esta atualização nas informações dos produtos garante que pacientes e profissionais de saúde estejam plenamente cientes dos riscos potenciais, mesmo que incomuns, associados a esses tratamentos. A ação da Anvisa reforça o compromisso com a segurança do paciente e a transparência na comunicação de riscos, permitindo decisões mais informadas.
As decisões de indenização na Dinamarca e as atualizações nas bulas de medicamentos à base de semaglutida, como Ozempic e Wegovy, sublinham a importância da vigilância contínua sobre a segurança de fármacos que impactam milhões de vidas. A NOIA-NA, embora rara, é uma condição devastadora, e a busca por clareza sobre sua relação com esses tratamentos é fundamental para a saúde pública e a proteção do consumidor. Para aprofundar seu conhecimento sobre saúde e economia, continue explorando nossas publicações.
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