A ascensão de Priscila Santana, uma musicista nascida na periferia de Salvador, Bahia, ao prestigiado cenário cultural de Nova York, é um testemunho de talento e perseverança. Atualmente, Santana ocupa uma posição de destaque como uma das principais curadoras do SummerStage Festival, um dos maiores eventos gratuitos da cidade, cuja abertura icônica acontece no Central Park. Sua jornada profissional a levou de estudos em flauta, oboé e regência na Bahia a um doutorado na renomada Universidade Columbia, consolidando-a como uma figura influente no showbiz nova-iorquino.
O SummerStage, que celebra seu 40º aniversário, é um festival robusto que anualmente marca o início do verão em Nova York. Com mais de 100 shows gratuitos e a participação de aproximadamente 2 mil músicos de 30 países, o evento se estende até setembro, utilizando 12 parques da cidade como palcos. Nomes internacionais como Patti Smith, David Byrne, M.I.A. e Jon Batiste já se apresentaram, ao lado de artistas brasileiros como Marisa Monte, Iza, Alcione, Emicida e Ilê Aiyê. Este ano, o Central Park receberá Liniker e Luedji Luna em uma apresentação conjunta marcada para 26 de julho. Em comemoração às quatro décadas do festival, a Arsenal Gallery abriga uma exposição de fotografias de Jack Vartoogian, com imagens de shows ao ar livre de 1987 a 2019, visíveis até 21 de agosto.
Priscila Santana: Baiana Brilha como Curadora em Nova York
A chegada de Priscila Santana à curadoria do SummerStage sucedeu a de outra brasileira, Paula Abreu, após um processo seletivo rigoroso que envolveu mais de 50 candidatos. Nascida e criada no Engenho Velho de Brotas, em Salvador, Santana se destaca como a única imigrante na equipe, onde atua como gerente de programação e operações. Além da seleção artística, ela gerencia o orçamento do festival, que gira em torno de US$ 15 milhões. A presença de Santana em um papel tão proeminente desafia estereótipos, pois, como ela própria aponta, “curadores são normalmente homens brancos, mais velhos”. Seu trabalho exige viagens frequentes para descobrir novos talentos e firmar parcerias, tendo ela visitado recentemente países como China, Marrocos e Espanha.
Originária de uma família humilde – sua mãe dona de casa e seu pai eletricista –, Priscila, a caçula e única filha entre cinco irmãos, demonstrou desde cedo uma dedicação exemplar aos estudos. Ela recorda que compreendeu a importância da educação como meio de transformação pessoal, o que a motivou a sempre se empenhar. O interesse pela música surgiu de forma inesperada. Ainda na infância, participou do projeto social Oficina de Frevos e Dobrados, no Pelourinho, sob a liderança do maestro Fred Dantas, onde teve acesso a aulas e instrumentos gratuitos.
No projeto do Pelourinho, Priscila escolheu a flauta transversal, integrando a orquestra e, em breve, recebendo seus primeiros cachês. Posteriormente, ela se juntou ao projeto Pracatum, idealizado por Carlinhos Brown. Embora tenha tido poucos encontros diretos com Brown, ela guarda memórias vívidas da “percussão super rica vibrando no meio do Candyall” e da energia do local. Foi no Pracatum que a musicista relata ter iniciado seu processo de autoconhecimento e empoderamento como pessoa negra, um marco fundamental em sua formação.
Aos 18 anos, Santana fez uma transição significativa, trocando a flauta pelo oboé. Nesse período, ela passou a integrar a orquestra sinfônica do projeto Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia), o que lhe proporcionou a primeira oportunidade de viajar para fora do Brasil, conhecendo a Europa. No Neojiba, ela também atuou como professora e mantém, até hoje, contato com seus antigos alunos. Paralelamente aos estudos musicais, Priscila cursou jornalismo no Centro Universitário Jorge Amado, mas a paixão pela música prevaleceu, levando-a a concluir um bacharelado em oboé na Universidade Federal da Bahia.
Antes de se estabelecer em Nova York, Priscila Santana ainda residiu em João Pessoa, Paraíba, onde obteve seu mestrado em educação musical na Universidade Federal da Paraíba. Durante esse período, foi convidada para trabalhar no Programa de Inclusão Através da Música e das Artes (Prima), um projeto focado na formação de orquestras. Em João Pessoa, atuou como diretora artística e regente, viajando por todo o estado, visitando comunidades e favelas, e explorando o sertão. Sua gestão foi crucial para expandir o projeto, adicionando 10 novas orquestras às 15 já existentes, em um trabalho que ela descreve como “muito bonito”.

Imagem: valor.globo.com
A mudança para Nova York em 2012 ocorreu de forma inesperada. Priscila conheceu o percussionista canadense Gabriel Hoenich, que passava alguns meses em Salvador estudando, e eles se apaixonaram e casaram. A adaptação à nova cidade foi desafiadora, envolvendo não apenas a barreira da língua, o clima e a cultura distintos do Nordeste brasileiro, mas também a necessidade de reconstruir uma carreira. “No Brasil eu tinha uma carreira. Em Nova York precisei começar tudo de novo”, afirma a curadora, destacando a intensidade do recomeço.
No SummerStage, Priscila Santana trabalha diretamente com Erika Elliott, a diretora-executiva do festival. Santana descreve Elliott como uma mulher branca, judia, nascida na Califórnia, com um vasto conhecimento musical, especialmente sobre a história do hip hop. Priscila, por sua vez, complementa essa diversidade de repertório com seu conhecimento que abrange desde a música brasileira até a música clássica, considerando-se mais eclética. Em uma ocasião memorável, a musicista teve a oportunidade de tocar flauta no palco do Central Park ao lado de Fióti, demonstrando sua versatilidade.
Apesar de uma agenda intensa, Santana mantém sua natureza inquieta, conciliando o trabalho com estudos em música performática e liderança em políticas públicas. Desde 2023, ela cursa um doutorado na Universidade Columbia, um antigo sonho que se tornou realidade, embora exija grande esforço para conciliar todas as suas atividades. Para facilitar a travessia dos desafios acadêmicos, Priscila criou uma comunidade de estudantes brasileiros na Columbia, um grupo de apoio que, segundo ela, “faz uma diferença enorme”. Esta não é sua primeira iniciativa de agregação; em 2019, ao chegar a Nova York, fundou o Quilomba, um coletivo de mulheres negras nos Estados Unidos que hoje conta com mais de 200 integrantes, onde atua como diretora.
Com planos para o futuro pós-doutorado, Priscila Santana pretende retomar a regência, uma atividade que exerceu no Brasil e pela qual nutre grande apreço. Ela destaca que a regência exige muito estudo e proporciona um contato significativo com os músicos, gerando uma “sensação de comunidade” e uma “troca maravilhosa” quando há uma boa gestão, lembrando-se de ter regido orquestras com até 150 pessoas. Essa paixão pela liderança musical ressalta seu contínuo envolvimento com a arte e a cultura, sempre buscando impactar e conectar pessoas.
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A trajetória de Priscila Santana, da periferia soteropolitana ao palco mundial do Central Park, é um exemplo inspirador de como o talento, a dedicação e a busca por conhecimento podem abrir portas em cenários internacionais. Sua influência como curadora do SummerStage e seu trabalho em comunidades de apoio reforçam seu compromisso com a música e a diversidade cultural. Para mais informações sobre figuras inspiradoras e eventos que moldam o cenário global, continue acompanhando nossa editoria de Cidades.
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