O conceito de restauração e valorização do indivíduo, que ressoa na filosofia zulu “Sawabona” – “Eu te vejo, você é importante e obrigado por você existir” –, serve como pilar para um projeto transformador que utiliza a robótica para jovens privados de liberdade no Recife. Daniel Messias, estudante de análise e desenvolvimento de sistemas, destaca essa perspectiva que busca enxergar as qualidades e o potencial de cada pessoa, em vez de focar apenas nos erros. A resposta a “Sawabona” é “Shikoba”, que significa “Eu existo e eu sou bom para você”, completando o ciclo de reconhecimento e valor.
Essa abordagem restaurativa é a essência da pesquisa de Messias no Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), onde ele atua como mentor em robótica para jovens que cumprem ou cumpriram medidas socioeducativas na capital pernambucana. Para o pesquisador, a educação deve ser um meio de resgate, focando nas capacidades intrínsecas dos indivíduos. Ele exemplifica o sucesso dessa metodologia ao apresentar um robô seguidor de linha, desenvolvido pelos próprios jovens egressos das unidades da Fundação de Atendimento Socioeducativo de Pernambuco (Funase), demonstrando o potencial latente que aguarda ser estimulado.
Robótica Reintegra Jovens Privados de Liberdade no Recife
Daniel Messias argumenta que esses princípios restaurativos podem oferecer ao Brasil soluções mais eficazes para a reintegração social de pessoas privadas de liberdade, contrastando com a que ele descreve como uma “necropolítica”. Esse termo, cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, refere-se a uma política que, embora não necessariamente de eliminação física, aniquila narrativas, aspirações, possibilidades e a própria existência de determinados grupos sociais, como jovens negros. O projeto de robótica busca reverter essa lógica, apresentando noções de robótica e pensamento computacional para jovens que se encontram em transição ou ainda inseridos no sistema socioeducativo.
A iniciativa já demonstrou resultados promissores, com uma primeira turma formando 18 jovens que haviam deixado as unidades da Funase. Atualmente, uma segunda turma está em andamento, composta por adolescentes que ainda cumprem medidas socioeducativas. O professor Henrique Foresti, engenheiro de sistemas e criador da plataforma Roboliv.re – uma metodologia projetada para democratizar o acesso à robótica e utilizada na formação dos jovens –, enfatiza o impacto dessa experiência. Segundo Foresti, muitos desses jovens chegam ao Cesar desacreditados de sua capacidade de se integrar à sociedade. “Esse sentimento de pertencer é o grande desafio. Os meninos chegam aqui [no Cesar] e descobrem que por meio da tecnologia podem ter uma vida diferente”, destaca o professor, evidenciando a transformação de perspectivas que o contato com a robótica proporciona.
Os dados mais recentes divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2024 revelam que o Brasil contava com aproximadamente 11 mil adolescentes cumprindo medidas socioeducativas. Desses, mais de 95% são do sexo masculino e cerca de 74% são pretos ou pardos. Inicialmente, a pesquisa de Messias visava auxiliar no processo de reinserção social. Contudo, após as primeiras etapas de formação, os pesquisadores notaram que esses jovens possuem habilidades singulares que podem ser aproveitadas em diversas outras áreas, transcendendo o objetivo original do projeto.
Messias observa que a vivência em contextos de vulnerabilidade e superação de inúmeras barreiras confere a esses jovens uma visão crítica e uma capacidade de inovação distintas. Diferentemente de jovens que cresceram em cenários de privilégio, com acesso a idiomas e viagens internacionais, aqueles que vêm de um recorte social menos favorecido demonstram uma criatividade ímpar para desenvolver soluções para contextos diversos e plurais. Essa perspectiva única, moldada pela resiliência, torna-os valiosos inovadores, capazes de propor soluções relevantes para desafios complexos.
A próxima fase da pesquisa do Cesar se concentrará em analisar a lacuna existente entre a formação educacional e a geração de renda para esses jovens. Os pesquisadores consideram a possibilidade de criar uma startup que atue em colaboração com as unidades socioeducativas. Messias ressalta um ponto crucial: a “desfiliação”. “Quando ele sai do sistema, não encontra suporte nenhum”, explica. A falta de apoio adequado após a saída do sistema frequentemente leva à reincidência, gerando um efeito rebote prejudicial para toda a sociedade. A carência de estrutura estatal, aliada à oferta de redes de apoio por organizações criminosas, com auxílio para necessidades básicas e renda imediata, torna o crime uma alternativa “muito mais interessante” para esses jovens, aponta o pesquisador.
Daniel Messias critica o sistema socioeducativo atual, descrevendo-o como uma espécie de “escola” que, ironicamente, prepara indivíduos para o cárcere, contribuindo para alimentar um dos maiores sistemas penitenciários do mundo. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que, no primeiro semestre de 2025, o Brasil tinha quase 942 mil pessoas no sistema carcerário. Esse número é superado apenas pela China e pelos Estados Unidos, e representa uma população maior do que a de 15 cidades brasileiras. Uma perspectiva alarmante que sublinha a urgência de abordagens restaurativas e eficazes para a reintegração.

Imagem: Cesar via agenciabrasil.ebc.com.br
Além da robótica, a pesquisa planeja integrar testes vocacionais para identificar aptidões e auxiliar no desenvolvimento de planos de carreira alinhados às demandas do mercado de trabalho. O projeto beneficia-se de sua localização estratégica no Porto Digital, um dos principais polos de inovação tecnológica do Brasil, situado no centro do Recife e que abriga 475 empresas do setor. Esta proximidade oferece um ambiente fértil para a conexão dos jovens com oportunidades no ecossistema tecnológico, facilitando a transição para o mercado profissional.
A implementação do projeto não esteve isenta de desafios, principalmente no que tange à superação de preconceitos. Messias recorda a tensão inicial quando os jovens chegavam ao Cesar: “Era nítido aquele momento de tensão. A cara das pessoas dizendo: o que essas pessoas estão fazendo aqui?”. Sua resposta era sempre a mesma, tranquila e direta: “elas estão fazendo inovação”. Essa determinação em desconstruir estigmas reflete a própria trajetória de Messias, que tem, como se diz, “lugar de fala”. Ele mesmo experimentou o sentimento de não pertencimento. Nascido e criado no Coque (Ilha Joana Bezerra), bairro do Recife com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em 2006, Messias cumpriu medidas socioeducativas na adolescência, passando três anos e seis meses privado de liberdade entre internação e regime semiaberto.
Hoje, aos 26 anos, quando questionado sobre os motivos de sua apreensão no passado, Daniel Messias encarna a filosofia sawabona-shikoba em sua resposta. “Eu não quero falar do ato que eu cometi, porque aí eu vou estar olhando para o Messias que errou”, afirma, complementando: “Não me procure no passado, não, porque eu não estou lá mais.” Essa postura demonstra o poder da transformação e a importância de focar no presente e no futuro, valorizando o indivíduo pelo que ele é e pelo potencial que carrega, uma lição que o projeto de robótica busca ensinar a cada jovem.
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Este projeto exemplifica como a inovação e uma abordagem humanizada podem ser ferramentas poderosas na reintegração social e na construção de novas oportunidades para jovens em situação de vulnerabilidade. A iniciativa do CESAR, ao utilizar a robótica, não apenas oferece qualificação técnica, mas também resgata a dignidade e a perspectiva de futuro. Para saber mais sobre outras ações transformadoras e análises aprofundadas sobre cidades e projetos sociais, continue explorando nossa editoria de Cidades e acompanhe as últimas notícias em nosso portal.
Crédito da imagem: CESAR/Divulgação







