Em um evento que desafiou as convenções de despedida, o advogado com câncer terminal Tiago Pitthan, de 46 anos, organizou seu próprio velório no último sábado, 30 de maio, em Campo Grande. Longe do silêncio e da sobriedade usuais, a celebração transformou uma rua pacata em um palco de festa, com direito a roda de samba, shows de rock e muita dança, marcando uma autêntica homenagem à vida.
O encontro, inicialmente planejado para reunir cerca de cem amigos e familiares, ganhou proporções inesperadas após a grande repercussão nas redes sociais e entre conhecidos de Tiago. O espaço escolhido, uma antiga área de bar na rua Dom Lustosa, no bairro Seminário, mostrou-se pequeno para a demanda, levando ao fechamento da via e à ampliação da estrutura. A festa contou com praça de alimentação, área infantil e uma equipe dedicada de voluntários, que estimaram a presença de pelo menos 400 pessoas. O ambiente, que deveria evocar o luto, vibrava com a energia de uma festa, permeada por música e celebração.
Velório em Vida: Advogado com Câncer Festeja em Campo Grande
A programação musical foi um dos pontos altos da festividade. Teve início com um duo que entoou clássicos da bossa nova e MPB, seguindo-se uma vibrante roda de samba que envolveu o público. A diversidade cultural foi marcada pela apresentação de maracatu, sets de um DJ e, culminando a noite, shows de rock que mantiveram o clima de euforia. Tiago Pitthan, visivelmente emocionado e feliz, circulava entre os convidados, distribuindo abraços, cantando e posando para incontáveis fotos, personificando a alegria de viver que buscava transmitir.
No clímax da festa, Tiago subiu ao palco para um discurso aguardado. Em suas palavras, permeadas de agradecimentos e profundas reflexões sobre o diagnóstico de câncer incurável, ele insistiu em uma mensagem central: o evento não era sobre a morte, mas sobre a exaltação da vida. “Sou um cara privilegiado, tenho afeto, tenho carinho. E quando eu morrer, quero que vocês entendam que eu venci o câncer. Venço todos os dias quando acordo e decido que hoje vai ser um dia bom”, declarou, emocionando a todos os presentes.
A Visão de Tiago sobre a Vida e o Câncer
A intenção primordial de Tiago nunca foi uma despedida resignada, mas sim a criação de uma memória compartilhada e viva, enquanto ainda podia participar ativamente dela. Em declarações antes da celebração, ele enfatizou: “Não quero que ninguém respeite o câncer. Quero que façam piada, quero que a gente deboche dele”. Essa perspectiva reflete a maneira como ele escolheu encarar a doença, transformando a adversidade em uma oportunidade para celebrar cada momento e influenciar positivamente aqueles ao seu redor. A Organização Mundial da Saúde (OMS) constantemente destaca a importância do bem-estar emocional e da resiliência em pacientes que enfrentam doenças graves, um aspecto que Tiago Pitthan exemplificou de maneira notável em sua festa.
A família, que inicialmente demonstrou alguma resistência à ideia de um velório em vida, acabou aderindo plenamente à proposta. Mabel Martins Pitthan, de 78 anos, mãe de Tiago, subiu ao palco para compartilhar seus sentimentos. Ela confessou ter sentido tristeza com a ideia de participar do velório do próprio filho, mas expressou profunda admiração pela forma como ele lidava com a vida. “Doeu muito ir ao velório do meu filho”, afirmou Mabel. “Mas eu pensei: ‘Vou lá ver o guerreiro que meu filho se transformou’.”
Reação da Família e o Flash Mob Inesperado
Após seu discurso, Tiago ainda tinha a missão de entregar o palco às três bandas de rock que encerrariam a noite. Para garantir que a emoção não diminuísse o clima festivo, ele e seus amigos ensaiaram um flash mob surpresa, uma coreografia coletiva sincronizada com a música “Um Morto Muito Louco”. Tiago explicou a escolha: “Fiquei preocupado em subir no palco, porque eu sou chorão, minha mãe é chorona, minha família toda é emotiva, meus amigos são emotivos também. Como é que eu vou entregar o público assim para a banda? Com a dancinha, o pessoal vai rir, vai se divertir e, quando eu entregar para a banda, já vai estar um clima lá em cima”. Sua camiseta, com a frase “Viva como se fosse morrer” e, logo abaixo, “porque todos nós vamos”, resumia sua filosofia de vida.
O clima festivo foi plenamente restaurado após a performance da dança, e a noite prosseguiu com as apresentações de rock, lideradas por amigos do advogado. A celebração foi um testemunho da vasta rede de solidariedade que Tiago construiu ao longo da vida, com amigos e apoiadores cedendo espaço, ajudando na produção, e bandas, equipes de apoio e diversos serviços participando de forma voluntária. O único item que remetia a um velório tradicional era uma coroa de flores, confeccionada pelos amigos, ostentando a faixa “Uma homenagem ao bom sujeito”, apelido que Tiago carrega por seu amor ao samba e sua capacidade de unir pessoas.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Mabel, a mãe de Tiago, relatou que, com o avanço da doença, o filho alterna momentos de grande energia com períodos de quietude, nos quais apenas pede companhia. “Ele me chama para sentar na poltrona na frente dele, mas não quer conversa. Quer presença”, disse ela. Essa necessidade de presença, mais do que de palavras, revela a profundidade dos laços afetivos que o cercam.
O Legado de Uma Despedida Diferente
O irmão gêmeo de Tiago, Pablo Martins Pitthan, 46, diretor comercial residente em Portugal, foi um dos motivos para a escolha da data do evento, garantindo sua presença. Pablo expressou que não consegue encarar o evento como uma despedida. “Não vim para velório, vim para celebrar a vida, vim ver meu irmão”, afirmou. Sua decisão de viajar também foi motivada pela morte do pai, Alan Pitthan, em 2024, quando entraves imigratórios o impediram de vir ao Brasil. “Não me permiti que isso acontecesse de novo.”
Pablo acompanha a doença à distância e confessa evitar focar na progressão do câncer, talvez como uma autodefesa. “O irmão com quem eu falo continua sendo ele. Talvez até melhor com a vida, mais compreensivo”, ponderou. Ao presenciar a magnitude da festa, Pablo compreendeu o evento como um reflexo do legado de seu irmão e da maneira como ele enxerga a vida. “Ver uma doença terminal da forma como ele vê faz a gente pensar no que realmente importa”, concluiu.
A ideia do velório em vida surgiu para Tiago após a morte de seu pai, Alan Pitthan, aos 76 anos, em 2024. Durante a cerimônia, marcada por música e histórias, Tiago sentiu a ausência do principal personagem para ouvir as homenagens. “Pô, falta meu pai aqui. Ele sabe mais histórias dele do que todo mundo”, recordou. Esse sentimento plantou a semente da ideia, que se tornou realidade meses depois com o agravamento de sua condição. Ele queria estar presente, rever pessoas importantes e transformar a despedida em uma grande celebração.
Ao longo de todo o processo, Tiago adotou uma frase que encapsula sua perspectiva: “Eu tenho câncer, mas o câncer não me tem”. O advogado Ilmar Renato, 47, amigo da família desde os anos 1990 e companheiro de militância política do pai de Tiago, Alan, comparou o encontro a uma despedida irreverente. “Eu mando mensagem para ele dizendo que é o nosso Quincas Berro d’Água”, referindo-se ao personagem de Jorge Amado, cuja morte se transforma em festa, evidenciando o humor e a celebração presentes no evento.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
A história de Tiago Pitthan em Campo Grande é um poderoso lembrete de que a vida, mesmo diante da adversidade mais cruel, pode ser celebrada com alegria, afeto e gratidão. Sua atitude inspira a reflexão sobre como encaramos a finitude e como escolhemos viver cada momento. Para mais notícias e análises sobre eventos inspiradores e temas relevantes, continue acompanhando nossa editoria de Cidades.
Crédito da imagem: Chico Ribeiro /Folhapress







