Na última terça-feira, 24 de fevereiro, Donald Trump declarou a “era de ouro” da América durante seu discurso sobre o Estado da União. A fala do ex-presidente dos Estados Unidos, proferida em meio a índices de aprovação em declínio e crescente insatisfação eleitoral às vésperas das eleições de meio de mandato, buscou projetar uma imagem de sucesso e prosperidade para a nação.
Apesar do cenário político desafiador e da percepção pública mista, Trump dedicou a maior parte da primeira hora de sua apresentação a elogiar o desempenho econômico do país. Ele reiterou que sua gestão teria desacelerado a inflação, impulsionado o mercado de ações a patamares recordes, implementado significativas reduções fiscais e contribuído para a diminuição dos preços dos medicamentos, visando acalmar os parlamentares republicanos que expressaram preocupação com a possível perda da maioria no Congresso.
Trump Proclama ‘Era de Ouro’ em Discurso nos EUA
No entanto, a avaliação otimista apresentada por Trump não se alinhava completamente com a indignação dos cidadãos norte-americanos em relação ao custo de vida. Embora o ex-presidente tenha tentado atribuir a responsabilidade pelos preços elevados ao seu sucessor democrata, Joe Biden, pesquisas de opinião pública indicam que os eleitores o consideram responsável por não ter tomado medidas mais eficazes para aliviar a crise de acessibilidade, especialmente após uma campanha eleitoral intensiva focada no tema.
“Nossa nação está de volta – maior, melhor, mais rica e mais forte do que nunca”, afirmou Trump, ao ser ovacionado por seus colegas republicanos no Congresso. A cena contrastava com os muitos assentos vazios no lado democrata, um reflexo do boicote de vários legisladores que optaram por participar de protestos contra o ex-presidente do lado de fora do Capitólio.
O discurso anual ao Congresso ocorreu em um período complexo para a presidência de Trump. Pesquisas de opinião mostravam que a maioria dos americanos estava insatisfeita com sua performance, e havia uma crescente ansiedade em relação ao Irã, além do revés de sua política tarifária, que sofreu um golpe significativo após a Suprema Corte do país derrubar a maioria dos impostos de importação que ele havia instituído. Para compreender o cenário econômico global que impacta decisões políticas como essas, é fundamental acompanhar as análises de instituições financeiras internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), que oferece dados e relatórios sobre a economia dos EUA.
Economia em Foco: Discrepâncias entre Retórica e Realidade
Durante a maior parte de sua fala, Trump demonstrou uma disciplina incomum, seguindo de perto o roteiro preparado e evitando suas habituais digressões espontâneas. Contudo, seu lado combativo emergiu notavelmente ao abordar as medidas contra a imigração, resultando em trocas acaloradas de insultos com diversos legisladores democratas.
Apesar da declaração de Trump de que a inflação estaria “caindo vertiginosamente”, a realidade econômica para muitos norte-americanos era diferente. Os custos de alimentos, moradia, seguros e serviços públicos permaneciam significativamente mais altos em comparação com anos anteriores. Dados divulgados na sexta-feira, 20 de fevereiro, antes do discurso, revelaram que a economia havia desacelerado mais do que o esperado no último trimestre, enquanto a inflação, na verdade, acelerou, contradizendo as afirmações do ex-presidente.
Uma pesquisa conjunta Reuters/Ipsos confirmou a desconexão entre a retórica de Trump e a percepção pública, indicando que apenas 36% dos norte-americanos aprovavam sua gestão econômica. Os democratas, cientes desse cenário, nutriam a expectativa de retomar o controle de ambas as casas do Congresso em novembro, quando todas as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados e aproximadamente um terço das 100 cadeiras do Senado estariam em disputa.
Quanto à decisão da Suprema Corte sobre as tarifas, que o ex-presidente havia atacado pessoalmente após a divulgação na sexta-feira, Trump conteve-se na terça-feira. Ele classificou a decisão como “lamentável”, mas argumentou que, em última instância, ela teria pouco impacto sobre sua política comercial.
Política Externa e Imigração: Temas de Controvérsia
A política externa recebeu pouca atenção em seu discurso, um ponto notável dado o tempo e energia que Trump dedicou a questões internacionais durante seu mandato. Ele reiterou a afirmação de ter “encerrado” oito guerras, uma declaração amplamente considerada um exagero. O ex-presidente fez pouquíssima menção à Ucrânia, apesar de o dia do discurso marcar o quarto aniversário da invasão russa, e evitou abordar a China, principal rival econômico dos Estados Unidos, ou a Groenlândia, território semiautônomo dinamarquês que ele havia ameaçado adquirir.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Ainda sem oferecer clareza sobre seus planos para o Irã, em meio a sinais de uma possível escalada militar com Teerã, Trump declarou: “Minha preferência é resolver esse problema por meio da diplomacia. Mas uma coisa é certa: nunca permitirei que o maior patrocinador do terrorismo do mundo, que é de longe o Irã, tenha arma nuclear.”
Ao retornar ao seu tema preferido, a imigração, Trump repetiu a retórica que marcou sua campanha de 2024, alegando que migrantes sem documentos eram responsáveis por uma onda de crimes violentos. Essa afirmação, no entanto, é refutada por diversos estudos que demonstram o contrário. Ele chegou a repreender os democratas, afirmando que deveriam “ter vergonha” por se recusarem a financiar o Departamento de Segurança Interna sem que medidas fossem tomadas para conter as táticas agressivas dos agentes de imigração.
Pesquisas de opinião, entretanto, mostravam que a maioria dos norte-americanos acreditava que a repressão à imigração promovida por Trump havia ido longe demais, especialmente após dois cidadãos norte-americanos serem mortos a tiros por agentes federais mascarados em Minneapolis. Em um momento de alta tensão, a deputada democrata Ilhan Omar, que representa um distrito de Minneapolis na Câmara, gritou em direção a Trump: “Você matou norte-americanos!”.
Confrontos e Protestos no Congresso
Trump, que por anos propagou falsamente a ideia de fraude eleitoral generalizada no país, também criticou os democratas por não apoiarem a exigência de identificação do eleitor. “Eles querem trapacear”, declarou. Os democratas, por sua vez, argumentam que a legislação apoiada pelos republicanos imporia encargos desnecessários aos eleitores e suprimiria a participação nas urnas.
O deputado democrata Al Green foi retirado da Câmara pela segunda vez consecutiva após acenar para Trump com um cartaz que dizia: “Os negros não são macacos”. A mensagem fazia referência a um vídeo postado por Trump nas redes sociais que retratava o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama como macacos. A Casa Branca, posteriormente, removeu o vídeo, alegando que havia sido postado por um funcionário. Green, que é negro, já havia sido expulso durante o discurso do ano anterior por confrontar Trump em voz alta.
Outros democratas adotaram formas de protesto mais discretas. A deputada federal Jill Tokuda, democrata do Havaí, usou uma jaqueta branca adornada com palavras como “acessibilidade” e “saúde”. Várias mulheres democratas exibiram crachás com os dizeres “divulguem os arquivos”, uma alusão ao escândalo envolvendo o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein. Cerca de uma dúzia de acusadoras de Epstein compareceram ao evento como convidadas dos democratas, reforçando o clima de oposição e descontentamento durante o discurso.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
O discurso de Donald Trump sobre o Estado da União, marcado pela proclamação de uma “era de ouro” em contraste com um ambiente político polarizado e dados econômicos desafiadores, sublinhou as profundas divisões nos Estados Unidos. O evento não apenas serviu como plataforma para o ex-presidente expor sua visão otimista, mas também evidenciou a forte oposição democrata e as preocupações persistentes dos eleitores. Para se manter atualizado sobre os desdobramentos da política norte-americana e global, continue acompanhando nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Reuters/MANDEL NGAN/proibida reprodução







