A iminência do fenômeno climático El Niño e energia no Brasil apresenta um cenário complexo para a matriz elétrica nacional. A previsão é que a ocorrência force o acionamento das usinas termelétricas, tradicionalmente consideradas fontes mais custosas e poluentes. Contudo, essa mesma condição climática pode, paradoxalmente, impulsionar a utilização de energias renováveis e até mesmo diminuir os cortes na geração provenientes dessas fontes.
Cientistas alertam para a possibilidade de o El Niño alcançar uma intensidade inédita, o que resultaria em um agravamento da seca nas regiões Norte e Nordeste do país, enquanto o Sudeste experimentaria uma redução significativa no volume de chuvas. Consequentemente, haveria uma diminuição no fluxo dos rios e nos níveis dos reservatórios hidrelétricos, com impactos diretos na produção das usinas que formam a base da matriz energética brasileira.
El Niño e Energia: Renováveis e Térmicas em Estratégia
Para assegurar o fornecimento de eletricidade e prevenir um cenário de apagão, será crucial preencher a lacuna energética deixada pela menor geração hidrelétrica. A escolha das fontes alternativas será determinada por uma análise criteriosa de custo-benefício e disponibilidade. Neste contexto, as energias eólica e solar, ambas renováveis, surgem como opções mais econômicas. Elas também demonstram um aumento de potência durante períodos de seca, o que as torna candidatas prioritárias para suprir a demanda. No entanto, sua principal característica é a instabilidade, uma vez que a geração varia conforme a intensidade do sol e do vento. Em contraste, as usinas térmicas, embora representem um custo mais elevado na conta de luz, oferecem a vantagem da previsibilidade, sendo acionadas conforme a necessidade e a demanda do sistema.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já sinaliza que a solução para o desafio imposto pelo El Niño envolverá uma estratégia mista. O plano prevê o aproveitamento máximo das fontes renováveis sempre que disponíveis, sem descartar a contribuição essencial das usinas térmicas, que utilizam gás natural e carvão. Essa abordagem visa garantir a segurança energética do país diante das flutuações climáticas.
A experiência recente de 2021 serve como um precedente importante. Naquele ano, o Brasil enfrentou uma grande crise elétrica, igualmente provocada pela incidência de um forte El Niño. Naquela ocasião, o governo de Jair Bolsonaro (PL) precisou recorrer à contratação emergencial de termelétricas para atender à demanda energética nacional, evidenciando a vulnerabilidade do sistema em cenários de escassez hídrica.
Apesar da repetição do fenômeno climático, a situação atual difere da de 2021. A matriz elétrica brasileira apresenta-se hoje significativamente mais diversificada. Esta mudança é um resultado direto do substancial crescimento das fontes de energia renovável, que expandiram sua participação no mix energético nacional.
Dados fornecidos pelo ONS ilustram essa transformação: a capacidade instalada de energia solar, por exemplo, deu um salto notável, passando de 3,1 gigawatts (GW) em 2021 para 19,5 GW em 2026. A energia eólica também registrou um crescimento expressivo, elevando sua capacidade de 16 GW para 35,6 GW no mesmo período. Além disso, a micro e minigeração, que abrange principalmente sistemas de painéis solares instalados em residências e pequenos empreendimentos, praticamente inexistente há cinco anos, explodiu para 46,2 GW. Somadas, essas fontes representam um incremento de 82,2 GW na capacidade de geração, quadruplicando o que estava disponível em 2021.
Para contextualizar, as três principais hidrelétricas da região Norte do Brasil – Madeira, Tucuruí e Belo Monte – possuem uma capacidade de geração combinada de 24 GW. Em um cenário de El Niño severo, essas usinas poderiam ficar praticamente inoperantes. No entanto, o aumento da capacidade das fontes renováveis indica que, ao menos em parte, os déficits energéticos causados pela intensa seca podem ser mitigados ou compensados por elas.
O ONS reitera que, apesar dos desafios impostos pelo El Niño, não são esperados riscos à estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN). A expectativa é que a diversificação da matriz energética ofereça maior resiliência.
Elbia Gabnoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeólica), destaca a importância da energia dos ventos. “Ainda é cedo para estimar números, mas se o El Niño provocar novamente uma redução da geração hidrelétrica, a expectativa é que a energia eólica desempenhe um papel estratégico na segurança energética”, afirma. De maneira similar, a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) ressalta o desempenho da solar. Em nota, a entidade declara que “quando os reservatórios enfrentam menor afluência, a geração solar tende a apresentar excelente desempenho devido à maior incidência de radiação solar e menor cobertura de nuvens”.

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Apesar de o custo de acionamento das usinas térmicas ser superior ao das renováveis e hidrelétricas, Xisto Vieira, diretor da Associação Brasileira De Geradoras Termelétricas (Abraget), argumenta que este custo é significativamente menor do que o impacto financeiro de um racionamento de energia, que, segundo ele, seria uma “explosão na conta de luz”.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já emitiu orientações às hidrelétricas para que intensifiquem o monitoramento dos reservatórios e implementem medidas proativas para atenuar os potenciais efeitos do El Niño. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), entidade que congrega principalmente as hidrelétricas, a situação atual dos reservatórios no país é considerada confortável.
O maior risco, entretanto, projeta-se para 2027. Uma seca mais intensa no presente ano reduziria as chuvas do ciclo hidrológico subsequente, comprometendo o fluxo dos rios e, por conseguinte, ameaçando os estoques de água necessários para as usinas. “Há um indicativo que de fato tenhamos menores afluências, o que certamente exigirá maior despacho de usinas termelétricas”, declara a Abrage. A entidade complementa, enfatizando que, “mesmo que tenhamos matriz diversificada e possamos contar com eólicas e solares em determinados momentos do dia para atendimento à ponta do sistema, não vamos poder renunciar a utilizar recursos mais onerosos das térmicas”. Para informações detalhadas sobre a operação do sistema elétrico brasileiro, consulte os relatórios do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Profissionais do setor energético avaliam que, em meio ao cenário delineado pelo El Niño, um dos efeitos positivos que podem surgir é a potencial redução dos cortes de geração elétrica em usinas de fontes renováveis localizadas na região Nordeste do país. Historicamente, esses cortes têm representado um desafio considerável para o setor elétrico brasileiro nos últimos anos. A principal causa tem sido o descompasso entre o rápido aumento na instalação de parques eólicos e solares e a lenta expansão da capacidade de transmissão da rede. Os cortes são mais frequentes em momentos de alta produção de energia eólica e solar, quando a infraestrutura existente não consegue escoar todo o volume gerado.
No entanto, se o El Niño provocar uma diminuição na produção das hidrelétricas em 2027, conforme as projeções, haverá uma maior disponibilidade de espaço na rede de transmissão. Essa capacidade ociosa poderia ser utilizada para acomodar a energia gerada pelas fontes renováveis, diminuindo a necessidade de aplicar cortes e otimizando o aproveitamento desses recursos limpos.
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Em suma, o próximo El Niño configura um ponto de inflexão para a gestão da energia no Brasil. A necessidade de um balanço estratégico entre a robustez das usinas térmicas e a crescente capacidade das energias renováveis é mais evidente do que nunca. A diversificação da matriz elétrica demonstra ser a chave para mitigar os impactos climáticos e assegurar a estabilidade do fornecimento. Para continuar acompanhando as últimas notícias e análises sobre o setor de energia e economia, explore nossa editoria de Economia.
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