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Bolsa antes da eleição: vale a pena carregar ações no pregão final?

Economia

A proximidade do segundo turno das eleições trouxe uma questão crucial para investidores no mercado financeiro: é prudente manter posições compradas em ações até o pregão de segunda-feira, após o encerramento do último dia de negociação, a sexta-feira, 23 de outubro? Esta decisão vai além da simples expectativa de alta ou queda do mercado, envolvendo uma análise aprofundada de riscos e potenciais recompensas.

A estratégia de carregar ações durante o fim de semana eleitoral pode, em tese, permitir que o investidor capitalize um movimento favorável do mercado logo na abertura do pregão seguinte. No entanto, ela também implica em atravessar um período sem negociações, impedindo ajustes na carteira caso as expectativas mudem drasticamente. Para os praticantes de day trade, o risco é zerado ao fim da sessão de sexta. Já para quem adota o swing trade, mantendo a posição por mais de um dia, a maior parte do risco se manifesta justamente após o fechamento do mercado.

Bolsa antes da eleição: vale a pena carregar ações no pregão final?

Um fator adicional a ser considerado é que diversas ações ligadas à economia doméstica já registraram valorizações significativas entre o primeiro e o segundo turno das eleições. Isso sugere que, mesmo que o cenário político esperado se materialize, uma parcela considerável desse otimismo já pode estar precificada, limitando o potencial de ganhos adicionais. O dilema central, portanto, reside em ponderar o lucro potencial de um cenário favorável contra a perda que pode ocorrer se a abertura da segunda-feira vier em direção oposta.

A Volatilidade e a Gestão de Risco para Investir

Para Victor Hugo Riffel, head da Mesa Trader da Ável, a principal adaptação para o último pregão antes da eleição deve ser no tamanho da posição. Ele enfatiza que, em um ambiente de maior volatilidade, o valor financeiro em risco com a mesma quantidade de ações ou contratos se eleva proporcionalmente. “Se a volatilidade dobra e eu mantenho a mesma mão, meu risco dobra junto”, explica. Riffel utiliza o conceito de VaR (Value at Risk) para ilustrar como o aumento da oscilação do mercado, sem a devida redução da exposição, amplifica o risco operacional.

Eduardo Tellechea Cairoli, CEO e fundador da Privatto Multi Family Office, corrobora essa visão, separando convicção de exposição. Ele argumenta que uma forte crença em um determinado resultado eleitoral não justifica o aumento proporcional do tamanho da posição. Para Cairoli, a sexta-feira pré-eleitoral não deve ser um dia para maximizar a exposição, mas sim para selecionar as assimetrias mais promissoras. A cautela se estende à concentração de ativos; ter ações de Banco do Brasil, uma construtora e outro papel sensível a juros pode parecer diversificação, mas todos podem reagir de forma similar a mudanças abruptas na percepção de risco fiscal ou taxa de juros.

O “Gap de Abertura” e a Ineficácia do Stop Loss

Um dos maiores obstáculos para quem planeja manter posições na Bolsa durante o período eleitoral é o temido “gap de abertura”. Este fenômeno ocorre quando uma ação inicia o pregão seguinte com uma cotação significativamente diferente (acima ou abaixo) do seu fechamento anterior. Entre o fechamento de sexta-feira e a abertura de segunda-feira, não há negociações na B3, o que compromete a eficácia do stop loss, uma ferramenta essencial para limitar prejuízos, programada para encerrar posições ao atingir um determinado preço.

Riffel é categórico: “O stop não protege no gap”. Ele exemplifica que, se uma ação fechar a R$ 20 e reabrir a R$ 18, nenhuma transação ocorrerá entre esses valores durante o fim de semana. A ordem de saída só será executada no primeiro preço disponível quando o mercado retomar as operações. Diante desse cenário, Jason Vieira, economista-chefe da Lev, adota uma postura de extrema cautela. Ele prevê uma forte reação das ações na abertura de segunda-feira, independentemente do resultado, cuja intensidade e direção dependerão da interpretação do mercado sobre o novo contexto político e fiscal. “Eu não carregaria agora uma posição”, afirma Vieira, sugerindo que a alternância ou continuidade de poder exigirá atenção redobrada aos nomes da equipe econômica e às propostas fiscais.

Proteção com Opções: Custo e o “Volatility Crush”

Embora a avaliação dos especialistas não descarte totalmente a existência de oportunidades, eles destacam que a relação risco-retorno se altera drasticamente pela incapacidade de reação do investidor. Uma alternativa para limitar previamente parte desse risco é o mercado de opções. Uma opção comprada concede ao investidor um direito sobre um ativo, e a perda máxima para o comprador é limitada ao valor pago pelo prêmio. Calls são opções de compra, enquanto puts são opções de venda, podendo ser usadas para proteger uma carteira contra quedas.

Entretanto, essa proteção tem um custo. Antes do primeiro turno, levantamento do InfoMoney indicou que opções próximas ao preço do ativo apresentavam alta volatilidade implícita (medida da oscilação esperada) – cerca de 39% no BOVA11, 47% em Petrobras e 66% em Banco do Brasil. Uma volatilidade implícita elevada se traduz em um prêmio maior nas opções. Após a votação, boa parte desse prêmio desapareceu, com a volatilidade implícita caindo para aproximadamente 25%-26% no BOVA11, 34%-36% em Petrobras e 40%-42% em BBAS3. Este fenômeno é conhecido como “volatility crush”, a queda rápida da volatilidade implícita após um evento de alta incerteza. Isso explica por que, no mercado de opções, acertar a direção do movimento não garante lucro, como observa Cairoli.

O Impacto do “Buy the Rumor, Sell the News”

Além do risco de gap, outra questão relevante é que o “trade eleitoral” já impulsionou movimentos expressivos desde o primeiro turno. Empresas ligadas à economia doméstica, small caps, varejistas e construtoras registraram fortes avanços. Rafael Perretti, economista e analista da Clear Investimentos, aponta que algumas ações de menor capitalização chegaram a acumular ganhos de 30%, 40% ou até 50%. A sensibilidade dessas ações funciona em duas direções: podem subir mais em um cenário favorável ou apresentar realização de lucros caso a notícia já esteja incorporada aos preços. “Mais do que acertar quem ganha, o trader precisa saber quanto do resultado já está no preço. E hoje, uma boa parte está”, ressalta Riffel.

Bolsa antes da eleição: vale a pena carregar ações no pregão final? - Imagem do artigo original

Imagem: infomoney.com.br

Cairoli chama atenção para o conhecido padrão de “buy the rumor, sell the news” (compre no boato, venda no fato), onde investidores antecipam um cenário, elevam os preços e, ao confirmá-lo, realizam lucros. Essa dinâmica é particularmente relevante para papéis que foram o centro dos movimentos entre os turnos, como Banco do Brasil (BBAS3), B3 (B3SA3), Cyrela (CYRE3), varejistas e outras empresas sensíveis aos juros. Para uma análise mais aprofundada sobre como a política econômica e fiscal influencia os mercados, você pode consultar estudos e artigos em portais especializados como o Valor Econômico.

Análise Histórica: Como a Bolsa Reagiu em Eleições Anteriores

O histórico eleitoral recente reforça a complexidade de operações especulativas. As eleições de 2018 e 2022 demonstram que a reação do mercado pode variar significativamente entre o primeiro e o segundo turno, e que o comportamento do Ibovespa pode divergir do de ações individuais. Em 2018 e 2022, o Ibovespa, Banco do Brasil, Petrobras e Itaú apresentaram valorização no primeiro pregão após o primeiro turno. Contudo, após a votação definitiva, o padrão se alterou.

Em 2018, todos os quatro ativos fecharam o primeiro pregão pós-segundo turno em queda. Já em 2022, enquanto o Ibovespa e o Itaú registraram altas (1,31% e 2,91%, respectivamente), Banco do Brasil e Petrobras amargaram quedas de 4,64% e 8,47%. Esses dados, compilados pela Rocket Trader e elaborados por Rafael Perretti, indicam que a reação do primeiro turno não se repete necessariamente no segundo, e que acertar a direção do índice não garante o acerto na direção de uma ação específica. Perretti conclui que o histórico oferece mais pistas sobre a volatilidade esperada do que sobre a direção exata dos movimentos do mercado.

Estratégias para Gerenciar o Risco no Último Pregão

Em suma, carregar ações até a segunda-feira pós-eleição pode maximizar ganhos se o mercado reagir positivamente, mas também expõe o investidor a perdas que ele não poderá gerenciar durante o fim de semana. A relação risco-retorno, portanto, depende do ativo, do tamanho da posição e da tolerância individual à perda. A diferença objetiva entre operar apenas na sexta-feira e atravessar a votação é a aceitação de uma possível reprecificação sem a capacidade de ajustar a posição até a reabertura do mercado.

Entre as alternativas sugeridas por analistas e especialistas para limitar o risco, estão: reduzir o tamanho da posição, evitar a alavancagem excessiva, usar estruturas com opções para limitar perdas, ou simplesmente preservar a liquidez para operar após a divulgação do resultado. Embora esperar até segunda-feira signifique perder parte de uma eventual alta inicial, permite tomar decisões com base em um cenário mais claro. A questão primordial para quem considera manter ações compradas na sexta-feira não é “quanto posso ganhar”, mas sim “quanto estou disposto a perder se a abertura de segunda-feira vier na direção contrária?”.

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Para quem busca aprofundar o conhecimento sobre as dinâmicas do mercado financeiro em períodos de incerteza e planejar suas próximas estratégias, explore mais artigos e análises em nossa editoria de Economia. Mantenha-se informado e tome decisões mais assertivas.

Crédito da imagem: Ricardo Borges/Folhapress

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