A discussão sobre o futuro das políticas ambientais no Brasil ganha novos contornos com as propostas do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República. Em sua campanha, o parlamentar tem defendido abertamente a flexibilização das leis ambientais, prometendo “acabar com as amarras ambientais” para impulsionar a exploração de recursos naturais, inclusive em áreas de preservação.
Essa postura, manifestada em vídeo de campanha de agosto e reiterada em diversas ocasiões, inclui críticas severas às regulamentações de proteção e às operações de combate a crimes ambientais. Entre suas bandeiras, destacam-se a flexibilização da proteção florestal, a defesa da mineração e do turismo em terras indígenas, e a legalização do garimpo.
No mês anterior ao vídeo, Flávio Bolsonaro já havia expressado que as diretrizes ambientais atuais impedem o desenvolvimento de empreendimentos como resorts, além de relativizar a urgência do aquecimento global, categorizando-o como “eventos extremos e cíclicos”. As propostas de Flávio Bolsonaro leis ambientais e o discurso em torno da exploração de recursos naturais têm sido pilares de sua plataforma eleitoral.
Em abril, durante a pré-campanha, o senador prometeu não realizar demarcações de terras indígenas, ecoando um compromisso previamente assumido por seu pai, Jair Bolsonaro (PL), que foi detido sob acusação de liderar uma tentativa de golpe contra as eleições de 2022. Questionado pela Folha através do canal oficial de imprensa desde o dia 22 do mês passado, Flávio Bolsonaro não se manifestou até a publicação original deste conteúdo.
Em contrapartida, seu principal opositor na disputa eleitoral, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), centraliza sua campanha na defesa da agenda ambiental. Contudo, sua administração enfrenta críticas pela suposta promoção da exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Em agosto, Lula afirmou seu compromisso com a adoção de práticas ambientais cuidadosas nas atividades costeiras do Amapá.
Quando o tema são minerais críticos e terras raras, Flávio Bolsonaro propõe a exploração com a atração de capital estrangeiro e a participação de comunidades indígenas. A campanha de Lula, por sua vez, alinha essa atividade à soberania nacional, buscando agregar valor e processamento dentro do país.
No seu plano de governo, Flávio Bolsonaro omite os termos “mudança climática” ou “aquecimento global”. Ele estabelece a meta de zerar o desmatamento até 2029, preconiza a fiscalização sem prejudicar o produtor rural, defende investimentos em novas economias, a redução da estrutura de órgãos ambientais, exige transparência de ONGs do setor e propõe a expansão do saneamento básico.
A citação “Vamos acabar com essas amarras ambientais, porque, do jeito que está, nem se preserva o meio ambiente, nem se transforma todo esse potencial em prosperidade” resume a filosofia de sua campanha, indicando um caminho para transformar o potencial natural em crescimento econômico.
O presidente Lula, em contraste, aborda a “emergência climática” em seu plano. Ele promete alcançar o desmatamento zero até 2030, defender as leis de proteção ambiental vigentes, cumprir metas de descarbonização, investir em novas economias e trabalhar para construir cidades mais resilientes a desastres climáticos.
Repercussão e Análise de Especialistas
A polarização em torno da pauta ambiental é percebida por especialistas. Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, observa uma mudança de cenário: “Você tem hoje um cenário muito diferente do que aconteceu há alguns anos, em que ser acusado de destruir o meio ambiente era algo que um candidato queria evitar a qualquer custo. Hoje tem parlamentares que fazem da destruição ambiental um palanque eleitoral.”
Guilherme Syrkis, diretor-executivo do Centro Brasil no Clima, ressalta a importância de conciliar fiscalização com mecanismos de desenvolvimento sustentável para angariar apoio local. Ele aponta que, em locais onde o Estado é visto apenas pela punição, “quem promete tirá-lo do caminho soa como defensor das famílias. Só que esse discurso beneficia quem tem capital para abrir grandes áreas, o crime organizado, garimpo e madeira ilegais e a grilagem.” Ele conclui que “Enquanto não se chegar ao bolso das pessoas, o discurso da flexibilização vai continuar ganhando voto.”
A Pauta Ambiental em Outras Campanhas
A retórica anti-ambientalista não se restringe à esfera presidencial, ecoando em campanhas legislativas. Em agosto, a Assembleia do Pará aprovou uma lei que autorizou pecuaristas a atuar na terra indígena Ituna-Itatá, área habitada por povos isolados. Atualmente, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigam cerca de 300 fazendeiros coordenadamente atuando contra os indígenas, com a Justiça Federal apontando para o pagamento de recompensas a “invasores armados”. Políticos locais, em campanha, renomearam a área como “Terra Prometida” e substituíram a sinalização da Funai, enquanto a Defensoria Pública da União relata que a lei estadual desencadeou uma nova onda de invasões.
Aproximadamente 1.500 km dali, o deputado federal e candidato à reeleição Lucio Mosquini (PL-RO) criticava as operações de desintrusão na terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Procurado, Mosquini defendeu a demarcação e a “punição” a invasores, enquanto afirmava que fazendeiros com títulos de propriedade em áreas indígenas deveriam ser “intocáveis”.
Em Roraima, estado com as terras indígenas Yanomami e Raposa Serra do Sol, a defesa do garimpo gerou um grande número de candidaturas ao Senado. Plínio Valério (PSDB), candidato à reeleição no Amazonas, questionou a ilegalidade do garimpo em março, afirmando que “nada é legal nessa Amazônia, na Amazônia não pode nada, então tudo é ilegal”. Valério, que presidiu a CPI das ONGs, se posiciona contra o garimpo de “máfias” e “narcotráfico”, mas argumenta que “cadeados ambientais” e o lobby ambientalista impedem a regularização da atividade em territórios indígenas.
Outro exemplo é o senador Chico Rodrigues (PSB-RR), que em entrevista televisiva classificou a questão do garimpo como uma “verdadeira paranoia dos ambientalistas”. Hélio Lopes (PL), que transferiu seu título para Roraima em 2026, defende o “marco do extrativismo mineral sustentável” em sua corrida ao Senado. Também concorrendo ao Senado, Nicoletti (PL-RR) nega que a atividade seja crime e defende sua legalização, enquanto Marcio Junqueira (PSDB) se posiciona como “o maior defensor da não demarcação” de terras indígenas.
A Folha também tentou contato com todos os demais candidatos mencionados na reportagem, por meio de suas equipes de comunicação e mensagens para seus números profissionais, mas não obteve retorno.
Planos de Governo: Comparativo Ambiental
A seguir, um comparativo detalhado das abordagens de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro sobre temas ambientais cruciais, conforme seus respectivos planos de governo:
Mudança Climática e Aquecimento Global:
Lula (PT): Defende políticas de enfrentamento ao aquecimento global e menciona “mudança climática” nove vezes.
Flávio Bolsonaro (PL): Não utiliza esses termos, referindo-se apenas a “eventos climáticos extremos” uma única vez.
Desmatamento e Fogo:
Lula (PT): Propõe o Plano Nacional de Manejo Integrado do Fogo e busca o “desmatamento líquido zero até 2030”.
Flávio Bolsonaro (PL): Visa zerar o desmatamento ilegal até 2029 e combater queimadas ilegais, fortalecendo prevenção, monitoramento, fiscalização e combate a crimes ambientais.
Fiscalização:
Lula (PT): Busca expandir o monitoramento via satélite e o uso de inteligência artificial no combate a crimes ambientais, além de mecanismos de rastreabilidade nas cadeias produtivas.
Flávio Bolsonaro (PL): Sugere ferramentas aperfeiçoadas por inteligência artificial, imagens de satélite e ação coordenada, “sem criar novas obrigações ou custos desnecessários para o produtor”, e pretende reforçar o combate a organizações criminosas ligadas ao desmatamento e garimpo ilegal.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Ordenamento Territorial:
Lula (PT): Propõe o avanço na destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas ou assentamentos, reforçando a regularização fundiária.
Flávio Bolsonaro (PL): Pretende “acabar com a política que criminaliza o morador da floresta” e prevê cooperação com países vizinhos contra crimes ambientais transfronteiriços.
Entidades Ambientais:
Lula (PT): Defende o Código Florestal, a Lei da Mata Atlântica e o fortalecimento de arranjos regionais de planejamento e governança envolvendo diversos atores.
Flávio Bolsonaro (PL): Promete “eliminar superposições entre Ibama, Funai e ICMBio” e “exigir transparência de financiadores e de projetos das ONGs que recebem recursos internacionais e judicializam ações contra a União”.
Economia Verde:
Lula (PT): Menciona o mercado de carbono, o pagamento por serviços ambientais e o reconhecimento da restauração biocultural.
Flávio Bolsonaro (PL): Defende o pagamento por serviços ambientais, consolidação do mercado regulado de carbono, fortalecimento da indústria de fármacos e cosméticos, e o posicionamento do Brasil como fornecedor global de ativos ambientais.
Metas Climáticas do Acordo de Paris:
Lula (PT): Cita fundos como TFFF, Fundo Clima e Eco Invest como formas de cumprir essas metas.
Flávio Bolsonaro (PL): Não aborda o tema.
Petróleo, Gás e Combustíveis Fósseis:
Lula (PT): Defende a transição energética, investimentos da Petrobras na área e promete exploração de novas reservas com maior cuidado socioambiental.
Flávio Bolsonaro (PL): Cita petróleo de forma genérica e defende políticas sobre gás (Pré-Sal, Gás do Povo, fracking) visando “segurança energética total ao menor preço possível para o consumidor”.
Minerais Críticos e Terras Raras:
Lula (PT): Quer “evitar a simples exportação de matérias-primas estratégicas” e promover beneficiamento no país.
Flávio Bolsonaro (PL): Defende agregar valor, verticalização com incentivos e atrair capital estrangeiro e tecnologia.
Adaptação:
Lula (PT): Propõe a adaptação climática como eixo do planejamento público, com planos estaduais e municipais para eventos extremos e revitalização de bacias.
Flávio Bolsonaro (PL): Quer ampliar infraestrutura de prevenção a eventos extremos, universalizar saneamento básico, construir reservatórios e combater a seca.
A discussão sobre a necessidade de políticas ambientais robustas no Brasil tem sido um ponto central, com instituições como o Ibama registrando reduções no desmatamento na Amazônia Legal em 2023, evidenciando o impacto das ações de fiscalização.
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As propostas de Flávio Bolsonaro (PL) para flexibilizar as leis ambientais e os contrastes com a agenda de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinalizam um debate crucial para o futuro do Brasil. O tema ambiental, que outrora era evitado por candidatos, hoje se consolida como um palanque eleitoral significativo, com especialistas alertando para os riscos da flexibilização. Para aprofundar-se nos debates políticos e eleitorais que moldam o futuro do país, continue acompanhando nossa editoria de Política.
Créditos das imagens: Reprodução – 28.ago.2026/TV Globo; Ricardo Stuckert/Presidência da República







