O senador Flávio Bolsonaro (PL) fez um pedido público para que nações estrangeiras enviem a maior quantidade possível de observadores eleitorais para acompanhar as próximas eleições brasileiras. A solicitação foi feita em um evento que reuniu diplomatas, na última terça-feira (21), e incluiu uma citação de informações imprecisas sobre as urnas eletrônicas do Brasil. O parlamentar ressaltou a necessidade de contar com profissionais especializados na tecnologia eleitoral, visando aprimorar a segurança e a transparência do processo eleitoral nacional, conforme divulgado pela Folha.
A declaração de Flávio Bolsonaro destaca a importância de um olhar externo sobre o sistema eleitoral, apesar de as eleições no Brasil já contarem com a fiscalização de renomadas instituições internacionais. Essas missões são reconhecidas por sua independência e rigor técnico, iniciando seus trabalhos semanas ou meses antes do pleito para analisar diversos aspectos, como o funcionamento da Justiça Eleitoral, o financiamento de campanhas, o registro de eleitores e a contagem de votos, garantindo a integridade dos resultados.
Flávio Bolsonaro pede observadores eleitorais para eleições
Em 2022, por exemplo, a regularidade do pleito brasileiro foi certificada por organizações de alto prestígio, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), que tem um histórico de missões do tipo desde 1962, e a ONG americana The Carter Center, atuante desde 1989. Essas entidades são pilares na defesa da democracia e na promoção de eleições livres e justas ao redor do mundo. A preocupação com a credibilidade do processo eleitoral é constante, e a presença de observadores legítimos é um fator crucial para a confiança pública.
O apelo do senador, contudo, remete a comentários feitos por seu pai, que classificou as missões de observação como “inócuas” em maio de 2022. Naquela ocasião, questionou a capacidade desses observadores de acessar o código-fonte das urnas ou de acompanhar a apuração em “sala secreta”, levantando suspeitas já desmentidas pelas autoridades eleitorais. Essa linha de argumentação busca desacreditar o trabalho de instituições independentes e lançar dúvidas sobre a lisura do sistema eleitoral, mesmo com as frequentes demonstrações de sua robustez e segurança.
Anteriormente, em março, Flávio Bolsonaro já havia se manifestado sobre o tema durante a CPAC (Conservative Political Action Conference) nos Estados Unidos, a maior conferência de direita global. Na ocasião, instou os participantes a monitorar as eleições brasileiras e a exercer “pressão diplomática” para assegurar o adequado funcionamento das instituições. O evento é frequentemente palco de figuras do movimento “Make America Great Again”, que impulsionou Donald Trump ao poder e que ecoou acusações infundadas de fraude nas eleições de 2020, vencidas por Joe Biden.
A mobilização por “observadores”, um termo que ganhou proeminência no contexto democrático a partir dos anos 1990, pode, em certas situações, conferir uma aparência de legitimidade a tentativas de questionar a integridade do processo eleitoral brasileiro. Durante o mesmo evento, o senador também proferiu uma acusação inverídica ao afirmar que as urnas eletrônicas do Brasil teriam a mesma origem das urnas da empresa venezuelana Smartmatic. É fundamental distinguir entre uma observação eleitoral técnica e imparcial e iniciativas que podem ser utilizadas para fins políticos ou para disseminar desinformação.
A Ascensão dos “Observadores Sombra” e o Risco de Atuação Enviesada
É crucial notar que nem todos os observatórios eleitorais contribuem de forma democrática para um pleito. Especialmente a partir dos anos 2000, tem havido uma proliferação de grupos que, embora imitem as metodologias de observatórios legítimos, carecem de qualidade técnica ou de independência. Esses coletivos são frequentemente denominados na literatura acadêmica como observadores “sombra” ou “zumbis”.
Esses grupos são, em muitos casos, convidados por governos incumbentes e tendem a emitir pareceres favoráveis mesmo em eleições marcadas por indícios de fraude. Segundo pesquisadores políticos que se dedicam ao estudo do tema, essa tática foi amplamente empregada pela Rússia em sua esfera de influência na Europa, visando legitimar pleitos que poderiam ser questionáveis. Tal mecanismo é particularmente útil para líderes autoritários que buscam validar-se no cenário internacional, adotando uma fachada democrática, enquanto, na prática, subvertem os princípios eleitorais.
Susan D. Hyde, professora de ciência política na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), aborda essa complexidade em seu livro “O Dilema Pseudo-democrata” (2011). Ela argumenta que “muitos autocratas defendem os valores democráticos apenas no discurso e realizam eleições fraudadas sem correr riscos significativos ao seu poder. O monitoramento eleitoral internacional se disseminou amplamente porque o aval de observadores internacionais passou a ser reconhecido como um sinal de que um líder estava comprometido com eleições democráticas.” É exatamente nesse cenário que a distinção entre observação autêntica e manipulação se torna vital.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Em 2024, um relatório da ONG alemã Plataforma Europeia para Eleições Democráticas revelou que Vladimir Putin, presidente da Rússia, convidou pelo menos 150 “observadores” e “especialistas” falsos para monitorar as eleições em seu país. O relatório indicou que esses indivíduos eram, em grande parte, “políticos locais e ativistas europeus relativamente desconhecidos que representam ou são filiados a partidos ou movimentos de extrema direita”. Putin, por sua vez, rejeitou a presença de observatórios de prestígio, como o da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), reforçando a ideia de que a seleção dos observadores pode ser estrategicamente direcionada.
O Papel do Foro de Madri nas Missões de Observação Privadas
Mais recentemente, o Foro de Madri tem ganhado destaque por sua atuação. Trata-se de uma aliança internacional que congrega políticos de direita e extrema direita, ligada à Fundação Disenso, do partido espanhol Vox. O grupo, cujo nome representa uma contraposição ao Foro de São Paulo, uma aliança de esquerda, mantém estreitas conexões com figuras políticas brasileiras, como o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) e o ex-chanceler Ernesto Araújo. A organização tem sido ativa na disseminação de narrativas bolsonaristas na Europa.
Em 2024, Eduardo Bolsonaro, juntamente com as deputadas federais Bia Kicis (PL) e Gustavo Gayer (PL), participou de encontros organizados pela aliança com deputados conservadores do Parlamento Europeu. O objetivo declarado no site do grupo era “denunciar o crescente assédio e perseguição do governo de Lula da Silva contra a oposição política no Brasil”. Essas ações demonstram a articulação de grupos políticos internacionais para influenciar a percepção sobre a democracia em diferentes países.
Desde 2021, o Foro de Madri conduziu 20 missões privadas de observação eleitoral, posicionando-se como um contraponto às missões oficiais de organismos multilaterais, que geralmente dependem de um convite formal de uma autoridade eleitoral e seguem rigorosos códigos de conduta internacionais. Eduardo Cader, diretor da área internacional do Foro, afirmou em publicação no site da aliança que “por muito tempo, inúmeras missões internacionais consideraram legítimos processos altamente questionáveis e até mesmo notoriamente fraudulentos. Graças ao Foro de Madri, hoje há mais vozes”.
Em um exemplo de sua atuação, nas eleições de 2025 em Honduras, então presidida pela líder de esquerda Xiomara Castro, o Foro de Madri alegou ter levado uma missão ao país. O grupo afirmou que Castro e seu marido planejavam suspender o pleito. Em seu site, o Foro registrou “atrasos na abertura das seções eleitorais, ausências de membros das mesas eleitorais e falhas nos leitores biométricos”. O resultado da eleição foi a vitória do líder conservador Nasry Asfura, o Tito, que recebeu apoio de Donald Trump.
O Foro de Madri já realizou missões em dez países latino-americanos: Argentina, Colômbia, Equador, Guatemala, Honduras, México, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai. Contudo, o Brasil ainda não foi alvo de uma de suas missões de observação eleitoral. Para entender melhor o papel de organizações como a OEA, que promovem missões de observação eleitoral independentes e técnicas, é importante consultar as informações disponíveis em fontes confiáveis.
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A discussão em torno dos observadores eleitorais, amplificada pelo pedido de Flávio Bolsonaro, ressalta a complexidade e a importância da fiscalização dos processos democráticos. É fundamental que a sociedade e as instituições estejam atentas à qualidade e à independência dessas missões, garantindo que o objetivo seja a transparência e a legitimidade dos resultados, e não a disseminação de narrativas enviesadas. Para mais análises e notícias de política, continue acompanhando as publicações em nossa editoria de política.
Crédito da imagem: Raul Spinassé – 21.jul.2026/Divulgação/Novo Selo Comunicação







