Os riscos de investir na eleição, especialmente visando um rali pós-segundo turno, demandam uma análise criteriosa e estratégica por parte dos investidores. Após um período de euforia no mercado brasileiro, desencadeado pelo resultado do primeiro turno eleitoral, a perspectiva de ganhos rápidos atraiu muitos. No entanto, especialistas alertam para a necessidade de cautela ao montar posições de curto prazo, um movimento geralmente desaconselhado devido à sua alta volatilidade e incerteza inerente.
A semana subsequente ao primeiro turno marcou um ponto alto para o Ibovespa, que registrou seu melhor desempenho desde 2020, alcançando um patamar recorde acima dos 209 mil pontos na sexta-feira (9). Essa ascensão refletiu as expectativas do mercado em relação ao favoritismo da oposição. Uma pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira (8), indicou o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 49% das intenções de voto para o segundo turno, superando Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que apareceu com 45%.
Riscos de Investir na Eleição: Cautela Pós-2º Turno
Gestores e analistas, incluindo profissionais consultados pelo InfoMoney, enfatizam que, antes de buscar retornos financeiros, é fundamental que o investidor compreenda o quanto o cenário atual já está refletido nos preços dos ativos. Além disso, é crucial avaliar o potencial de perdas caso a aposta não se concretize e a capacidade de liquidar a posição a tempo de garantir os lucros desejados.
Análise de Especialistas e Volatilidade do Mercado
André Matos, CEO da MA7 Capital, aponta que o influxo de aproximadamente R$ 10 bilhões de investidores estrangeiros após o primeiro turno foi um fator determinante para a valorização da Bolsa de Valores. Contudo, Matos alerta que essa capitalização pode reverter-se com a mesma velocidade, caso novas pesquisas eleitorais alterem as percepções ou se as incertezas em torno da política fiscal do futuro governo se intensificarem. Ele ressalta que o mercado brasileiro opera com base em uma antecipação de expectativas, e não em uma transformação econômica já consolidada.
Nesse contexto de expectativas voláteis, o investidor deve considerar uma série de fatores antes de tomar qualquer decisão. A avaliação cuidadosa dos riscos é essencial para evitar armadilhas e proteger o capital. A instabilidade política e econômica, a dependência do fluxo de capital externo e as incertezas fiscais são elementos que podem impactar significativamente a performance dos investimentos.
Sete Riscos Essenciais para o Investidor
Antes de definir uma estratégia de investimento, é imperativo que o investidor leve em conta sete categorias de riscos. Esses elementos abrangem desde a precificação do mercado até a liquidez dos ativos, passando pela imprevisibilidade dos resultados eleitorais e as condições macroeconômicas globais. Compreender cada um desses pontos é vital para uma tomada de decisão informada e para mitigar os possíveis impactos negativos.
Precificação e Cenários Pós-Eleitorais
Logo após o rali inicial, Ricardo Farias, gestor da Fator Administração de Recursos, observou que o mercado começou a incorporar a vitória de Flávio Bolsonaro (PL) em suas projeções. Sua recomendação foi aguardar o arrefecimento da euforia para discernir entre o que representa uma reprecificação genuína e o que é meramente “ruído” especulativo. Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, complementa essa visão, afirmando que os ativos já embutem a expectativa de quatro anos de governo Flávio Bolsonaro. Ele adverte que uma eventual vitória de Lula (PT) poderia anular grande parte desse movimento de alta.
Apesar das cautelas, alguns analistas identificam oportunidades para ganhos adicionais. O JPMorgan, em relatório de terça-feira (6), avaliou que o rali dos juros ainda possui força, impulsionado por um “momentum” robusto e um posicionamento relativamente desimpedido dos investidores. Na prática, a decisão de investir exige uma ponderação entre o potencial de lucro e o de prejuízo. André Matos projeta que, sob um cenário de continuidade do fluxo estrangeiro, o Ibovespa poderia atingir 215 mil pontos, um acréscimo de aproximadamente 2,9% sobre o fechamento anterior. Contudo, um retorno aos 192,1 mil pontos, patamar pré-primeiro turno, representaria uma queda de cerca de 8%.
O resultado do primeiro turno demonstrou a imprevisibilidade do cenário político, com Flávio Bolsonaro terminando com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual que inverteu as projeções das pesquisas. Gesner Oliveira, economista, sócio da GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), considera a vantagem de Flávio como reversível, tratando o segundo turno como uma nova e distinta disputa.
Histórico e Fatores Externos
O histórico recente oferece lições importantes para os investidores. Levantamentos do InfoMoney revelam que em 2014 e 2022, o dólar registrou quedas significativas logo após o primeiro turno, mas posteriormente recuperou grande parte do valor perdido. Em 2022, o Ibovespa chegou a registrar um declínio acumulado de 5% na última semana que antecedeu o segundo turno. Em contraste, no ano de 2018, o dólar manteve sua trajetória de queda até a realização da segunda etapa das eleições.
Gesner Oliveira também salienta que os riscos não se limitam apenas ao cenário eleitoral doméstico. Fatores globais, como as taxas de juros nos Estados Unidos, conflitos geopolíticos, o preço do petróleo e a aversão global a risco, têm o potencial de contrariar os movimentos do mercado interno. Essa interconexão com a economia mundial adiciona uma camada extra de complexidade aos investimentos em períodos eleitorais. Para aprofundar a compreensão sobre os estudos econômicos que impactam esses cenários, é útil consultar as pesquisas da Fundação Getulio Vargas.
A Armadilha da Precificação Antecipada
Acertar o vencedor da eleição, por si só, não é garantia de lucro. Se o resultado já precificado pelo mercado se confirmar, a venda massiva de investidores buscando embolsar ganhos pode provocar uma queda nos preços justamente no pregão subsequente à votação. Marcelo Boragini, da Davos Investimentos, previu uma abertura forte seguida de realização de lucros no primeiro pregão após o primeiro turno, um cenário que se concretizou com a Bolsa disparando na segunda-feira e devolvendo parte dos ganhos nos dias seguintes. O Goldman Sachs complementa que, após a eleição, o mercado voltará sua atenção para a definição do plano fiscal e da equipe econômica do novo governo.

Imagem: infomoney.com.br
Muitos investidores podem estar expostos aos resultados eleitorais sem sequer perceber. Os ativos mais sensíveis ao desfecho das urnas podem ser categorizados em três grupos principais, cada um com suas particularidades e reações esperadas diante do cenário político e econômico.
Ativos Mais Sensíveis ao Resultado Eleitoral
No grupo dos ativos que registraram valorização durante o rali pós-primeiro turno, destacam-se as ações domésticas sensíveis aos juros, como os setores bancário, varejista e de construção civil. Além disso, títulos prefixados e atrelados à inflação de prazo mais longo também se valorizaram, impulsionados pela queda nas taxas de juros. Em contrapartida, as estatais são apontadas por especialistas como os ativos com maior exposição ao resultado das eleições, dada a influência direta do governo sobre sua gestão e políticas.
No polo oposto, as empresas exportadoras, como Suzano e Vale, sofreram pressão e registraram queda, impactadas pela valorização do real frente ao dólar. É crucial observar que quem já possui ativos em alta e decide aumentar sua posição, acaba por concentrar a carteira em um único desfecho eleitoral, elevando o risco. Essa concentração pode amplificar tanto os ganhos quanto as perdas, dependendo da confirmação ou não das expectativas do mercado.
Impacto da Liquidez e Tributação
A votação, que ocorre em um domingo, significa que os investidores posicionados só poderão reagir na abertura do pregão de segunda-feira (26), momento em que os preços já terão incorporado o resultado eleitoral. Por essa razão, a liquidez de cada ativo assume uma importância tão grande quanto a própria aposta no resultado. Ricardo Trevisan lembra que Certificados de Depósito Bancário (CDBs) prefixados e atrelados à inflação geralmente não permitem resgate antes do vencimento.
No Tesouro Direto, a venda antecipada é assegurada, porém, as negociações podem ser suspensas em dias de elevada oscilação das taxas, um evento que já ocorreu diversas vezes ao longo do ano. Fundos multimercados e de ações, por sua vez, podem demandar dias ou até semanas para efetuar o pagamento do resgate, o que adiciona um fator de risco para quem busca liquidez imediata. Além disso, operações de curto prazo implicam em maior carga tributária, com a alíquota de Imposto de Renda variando conforme o ativo e o período de aplicação. Na renda fixa, a alíquota é de 22,5% para investimentos de até 180 dias, com incidência de IOF para resgates inferiores a 30 dias. Para ações, o lucro é tributado em 15%, com isenção para vendas mensais de até R$ 20 mil, enquanto ETFs de ações também pagam 15% sem a mesma isenção.
Recomendações para Proteger sua Carteira
Especialistas consultados pelo InfoMoney reiteram que a reserva de emergência e qualquer quantia com uso previsto para os próximos meses devem ser mantidas fora de qualquer tipo de aposta eleitoral. Esses recursos devem estar aplicados em produtos de baixo risco e com liquidez diária, garantindo que o investidor não seja forçado a vender posições com prejuízo em momentos de alta volatilidade do mercado. Essa é uma salvaguarda essencial para a saúde financeira pessoal.
Para o restante da carteira, Gesner Oliveira aconselha a manutenção de disciplina. Ele afirma que, quanto maior for a euforia do mercado, maior deve ser a disciplina do investidor, focando em diversificação, entradas graduais e uma análise atenta dos fundamentos dos ativos. Para aqueles que aplicaram no Tesouro IPCA+ no pico da taxa deste ano e acumularam ganhos brutos de quase 30% após o primeiro turno, a decisão de vender ou manter depende do objetivo inicial do investimento, segundo Trevisan. Quem buscou o ganho de momento pode considerar a venda parcial, enquanto investidores de longo prazo, como para aposentadoria, não precisam necessariamente se desfazer dos títulos.
Para investidores que preferem não manter posições direcionais durante o segundo turno, os especialistas recomendam o Tesouro Selic. Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, explica que, embora este título não prometa ganhos expressivos, ele mantém o capital do investidor protegido e com liquidez enquanto o cenário político não se define completamente.
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Em suma, a decisão de investir na eleição exige uma abordagem estratégica e consciente dos múltiplos riscos envolvidos. A volatilidade do mercado, a incerteza política e os fatores macroeconômicos globais são elementos que demandam cautela e uma análise aprofundada. Mantenha-se informado e continue explorando nossa editoria de Economia para mais insights e análises sobre o mercado financeiro.
Crédito da imagem: InfoMoney






