A guerra híbrida da Rússia tem escalado a um nível preocupante, com uma série de provocações atribuídas a Moscou que acenderam o alerta entre os aliados da Ucrânia na Europa. Relatos recentes incluem um drone carregado de explosivos em um aeroporto alemão e um ataque a um trem de passageiros próximo à fronteira com a Polônia, incidentes que, segundo autoridades ocidentais, podem colocar em risco cidadãos de nações da OTAN. Diante deste cenário de crescente tensão, a questão premente é como o continente europeu irá elaborar e executar uma resposta eficaz a essas complexas e perigosas táticas.
Na última semana, a gravidade da situação mobilizou líderes europeus a discutir, com uma urgência notável, o recrudescimento da guerra híbrida promovida pela Rússia. Donald Tusk, primeiro-ministro da Polônia, utilizou informações de inteligência não especificadas para alertar sobre a possibilidade de Moscou planejar ataques em território europeu. Emmanuel Macron, presidente da França, reforçou a preocupação, declarando que “ninguém está seguro”. Andy Burnham, primeiro-ministro britânico, discursou na Assembleia Geral da ONU, ressaltando que o Reino Unido enfrenta um “ataque em escala industrial” no âmbito da guerra de informação, evidenciando a amplitude das ameaças.
Rússia intensifica guerra híbrida; Europa debate como reagir
Uma avaliação divulgada na quinta-feira pelo serviço de inteligência de defesa da Dinamarca corroborou essas preocupações, concluindo que a Rússia intensificará suas ameaças contra países membros da OTAN. A expectativa é que essas ações resultem em consequências mais severas para os alvos do que observado no passado. A teoria predominante entre os analistas é que Vladimir Putin, enfrentando dificuldades no campo de batalha na Ucrânia, está elevando a intensidade dos ataques contra os países que apoiam Kiev. O objetivo estratégico por trás dessa escalada seria semear medo e pânico, visando enfraquecer o apoio contínuo à Ucrânia e, consequentemente, fragilizar a coalizão pró-ucraniana.
Contrariando a aparente intenção russa, o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, afirmou categoricamente que essa estratégia não terá sucesso. Em um discurso recente, Rutte declarou que o objetivo da Rússia é que o Ocidente cesse o apoio à Ucrânia, mas que, paradoxalmente, “as ações deles apenas nos levarão a fazer mais pela Ucrânia”. Por muitos anos, autoridades e especialistas vêm acusando Putin de empregar ações híbridas contra a Europa – iniciativas hostis elaboradas para evitar a atribuição direta de responsabilidade, geralmente mantendo-se em um limiar de dano que impede uma resposta militar contundente.
No entanto, a natureza dessas operações tem evoluído. Charlie Edwards, ex-integrante da inteligência britânica e atual pesquisador do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, aponta que o que mudou é a “potencial letalidade e a ambição operacional” das operações de sabotagem russas. Essa nova fase das estratégias de guerra híbrida representa um desafio maior para a segurança europeia. Em particular, a Alemanha investigou um incidente alarmante ocorrido no verão, onde agentes russos enviaram um drone equipado com explosivos de uso militar para o aeroporto de Leipzig/Halle, na região leste do país. As autoridades alemãs confirmaram que, se o dispositivo tivesse detonado, os danos seriam significativos e vidas poderiam ter sido perdidas.
Outro episódio marcante neste mês envolveu um drone russo que atingiu um trem de passageiros no oeste da Ucrânia, perigosamente próximo à divisa com a Polônia. O ataque ocorreu enquanto visitantes estrangeiros deixavam uma conferência diplomática em Kiev. Este evento foi amplamente interpretado como um claro alerta aos aliados da Ucrânia, sublinhando a crescente audácia das provocações. Em entrevista, o principal assessor militar da União Europeia, general irlandês Sean Clancy, enfatizou a necessidade de uma maior preparação: “Precisamos estar mais preparados e entender que essa atividade está se tornando praticamente onipresente”.
Na quarta-feira, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, reiterou que a guerra russa continuará a se expandir caso os aliados não reajam de forma assertiva. “Quanto mais liberdade Putin tiver para agir, mais perigoso o mundo se tornará para todos os outros”, alertou Zelensky em um discurso em Nova York. Por outro lado, o Kremlin consistentemente nega qualquer envolvimento em atividades híbridas. Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, por sua vez, atribui ao Ocidente uma “guerra híbrida” por meio de “medidas políticas, econômicas e coercitivas em larga escala”, incluindo sanções, conforme declarou em um discurso recente.
Apesar das tensões, autoridades ocidentais de segurança afirmam não haver indícios de que a Rússia esteja se preparando para um conflito convencional contra a OTAN. A avaliação é que Putin e suas forças, já sobrecarregadas, estão concentrando esforços em minar a Ucrânia e seus aliados por outros meios. Baiba Braze, ministra das Relações Exteriores da Letônia, explicou em entrevista em Riga que a Rússia “não tem capacidade para desafiar a OTAN neste momento”. Ela acrescentou que as forças russas “não conseguem mover a frente, não estão conquistando território”, reforçando a percepção de que a tática de guerra híbrida é uma alternativa para Moscou.
O que a Rússia pode fazer, e tem feito, é continuar a promover ataques híbridos de custo relativamente baixo, mas de alto impacto. Essas ações incluem o envio de drones para o território da OTAN com o propósito de vigiar bases militares e perturbar o tráfego aéreo comercial. Também há relatos de interferência nos sistemas de navegação de aviões de passageiros e invasões em redes elétricas e represas, que poderiam causar grandes interrupções e danos à infraestrutura crítica. Apenas na semana passada, um navio de guerra russo disparou sinalizadores contra um helicóptero dinamarquês em águas internacionais, enquanto um caça da OTAN abateu um drone que provavelmente havia entrado no espaço aéreo da Lituânia vindo de Belarus, aliado da Rússia.

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Nils Schmid, vice-ministro da Defesa da Alemanha, articulou a visão europeia sobre o momento decisivo: “Um ataque ocorrerá quando intenção política, prontidão militar e um momento estrategicamente favorável se combinarem para permitir que isso aconteça”. Ele enfatizou que “nossa tarefa – a tarefa da Europa – é tornar permanentemente impossível para Moscou considerar que existe um momento favorável desse tipo”. Contudo, um desafio considerável para a Europa reside na percepção de que os Estados Unidos parecem menos inclinados a adotar uma postura rigorosa em relação à Rússia, exemplificado pelo convite do governo Trump a Putin para participar de uma cúpula do G20 em Miami, em dezembro.
Desde a invasão em larga escala da Ucrânia, os países europeus têm buscado conter a Rússia através de sanções econômicas, congelamento de ativos financeiros, expulsão de diplomatas e denúncias públicas de Moscou por seus ataques. No entanto, essas medidas não parecem ter intimidado a Rússia o suficiente. O ministro da Defesa da Suécia, Pal Jonson, questionou a eficácia da abordagem atual em uma entrevista recente: “A discussão tem sido sobre se a dissuasão funciona quando se trata de operações híbridas, e eu diria que não funciona bem o suficiente”.
Nesse contexto, Kaja Kallas, chefe da diplomacia da União Europeia, tem pressionado os líderes a aplicar punições de maneira mais agressiva e, potencialmente, a reduzir o número de turistas russos autorizados a entrar nos países europeus. Na semana passada, ela também solicitou o reforço das proteções contra a desinformação e o recrutamento de agentes promovidos pela Rússia. Alguns especialistas em segurança sugerem que a OTAN considere a criação de um novo nível de resposta conjunta da aliança a ataques híbridos, embora essa ideia ainda esteja em estágio inicial e no campo teórico. Para mais informações sobre o conceito de guerra híbrida e suas implicações, você pode consultar fontes como a Deutsche Welle.
Muitos funcionários europeus argumentam que a melhor maneira de manter a Rússia sob controle é continuar enviando apoio militar à Ucrânia. A Polônia, por exemplo, demonstrou seu compromisso ao prometer interceptadores Patriot adicionais à Ucrânia, que são escassos globalmente, apenas alguns dias após o ataque ao trem perto de sua fronteira. Essa medida visa fortalecer a defesa ucraniana contra mísseis balísticos russos. O tenente-general Krzysztof Krol, assessor do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Polônia, enfatizou a mensagem clara: “independentemente das suas ações, Rússia, nós apoiaremos ainda mais a Ucrânia”. Krol acrescentou que Moscou está alterando suas táticas, intensificando suas atividades para manter a Europa em desequilíbrio.
Após dias de alertas urgentes, autoridades europeias agora parecem empenhadas em transmitir uma imagem de estabilidade e resiliência. Mark Rutte, em recente declaração, afirmou que a Rússia está enfrentando “grandes dificuldades” em relação à Ucrânia e que é fundamental “manter a calma” e “continuar” o trabalho. De forma semelhante, Emmanuel Macron aconselhou que a Europa deve “resistir à tentação de reagir de forma exagerada”. Segundo o presidente francês, a dissuasão deve permanecer discreta, pois “não podemos mostrar nossas cartas”, indicando uma estratégia de cautela e firmeza velada diante das ações russas.
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Em suma, a escalada da guerra híbrida russa exige uma resposta coesa e estratégica da Europa, que equilibre a firmeza contra as provocações com a cautela para evitar a desestabilização. A União Europeia e a OTAN buscam fortalecer suas defesas e o apoio à Ucrânia, enquanto avaliam a melhor forma de enfrentar uma ameaça que se torna cada vez mais complexa e letal. Para mais análises aprofundadas sobre política internacional e seus desdobramentos, continue acompanhando nossa editoria de Política.
Este artigo foi publicado originalmente pelo The New York Times.







