A recente colisão de dois jatos da Marinha dos Estados Unidos durante um show aéreo no estado de Idaho, ocorrida no último fim de semana, em 17 de maio de 2026, reacende o debate sobre os vultosos gastos do Pentágono com exibições para entretenimento. O incidente, que envolveu aeronaves multimilionárias e suas tripulações altamente qualificadas, levanta questionamentos cruciais sobre a justificação de tais riscos.
John Venable, renomado pesquisador sênior residente do Mitchell Institute for Aerospace Studies e experiente ex-piloto de caça da Força Aérea dos EUA, comentou que “esses questionamentos quase sempre fazem parte do ruído que cerca um acidente”. A declaração sublinha a natureza recorrente dessas discussões sempre que incidentes como este ocorrem, colocando em xeque a política de usar equipamentos de guerra sofisticados para fins de demonstração pública.
Custo de Milhões: Marinha dos EUA e Shows Aéreos de Jatos
O acidente, registrado no domingo (17) durante o Gunfighter Skies Air Show, sediado na Mountain Home Air Force Base, envolveu dois jatos EA-18 Growlers da Marinha. Esses Growlers são aeronaves de guerra eletrônica que compartilham a plataforma do caça F/A-18, o que ressalta a complexidade e o valor intrínseco de cada aparelho. As aeronaves pertenciam ao Electronic Attack Squadron 129, com base em Whidbey Island, Washington, e eram pilotadas por membros do Growler Airshow Team, conforme comunicado oficial da Marinha.
Após a dramática colisão aérea, os quatro tripulantes a bordo dos jatos conseguiram ejetar com sucesso. Felizmente, apenas um dos envolvidos precisou de atendimento hospitalar, e seus ferimentos foram classificados como sem risco de morte. A capacidade de ejeção bem-sucedida, embora um alívio, não diminui a gravidade do incidente nem o custo associado à perda de equipamentos tão caros. Notavelmente, em maio, equipes de resgate já haviam respondido a um incidente durante o show aéreo Gunfighter Skies na Base Aérea de Mountain Home, em Idaho, onde um locutor confirmou ao público o encontro dos quatro pilotos da Marinha.
Detalhes do Acidente e os Custos Elevados
O custo de um único jato Growler é impressionante, estimado em aproximadamente US$ 68 milhões, o equivalente a cerca de R$ 340 milhões, segundo uma ficha técnica da Marinha de 2021. No entanto, o custo de substituição dessas aeronaves seria consideravelmente maior, dada a interrupção da produção dos jatos EA-18, embora a Boeing ainda continue a fabricar os F/A-18. Além do valor de aquisição, os custos operacionais da família de jatos F/A-18 giram em torno de US$ 20 mil por hora, o que equivale a aproximadamente R$ 100 mil por hora, de acordo com um comunicado de imprensa da Boeing de 2022. Essa quantia exorbitante por hora de voo adiciona uma camada extra de complexidade à questão do risco e do valor das exibições aéreas.
A pergunta central que ecoa é: por que investir uma soma tão elevada de dinheiro, arriscando equipamentos multimilionários e a vida de tripulantes altamente qualificados, simplesmente para entreter o público? Esta é a indagação que impulsiona a análise das Forças Armadas dos EUA e a avaliação dos benefícios que tais demonstrações supostamente proporcionam.
Orçamentos Milionários e o Questionamento do Retorno
O Growler Airshow Team representa apenas uma fração das inúmeras equipes de demonstração que as Forças Armadas dos EUA mantêm, realizando manobras audaciosas em shows aéreos ao longo do ano. Entre as mais célebres estão as Blue Angels da Marinha e as Thunderbirds da Força Aérea, que, por décadas, têm sido as principais atrações de dezenas de eventos anuais, voando com suas aeronaves distintamente pintadas e realizando proezas que cativam multidões. No entanto, os orçamentos anuais destinados a essas equipes não são publicamente divulgados, e o Pentágono não forneceu esses valores mesmo após múltiplas solicitações da CNN, aumentando o véu de mistério sobre os custos reais.
Apesar da falta de transparência atual, um estudo de custo-benefício de 2012, conduzido por três oficiais da Marinha em uma escola de pós-graduação na Califórnia, revelou dados significativos. A análise apontou que o orçamento das Blue Angels era de aproximadamente US$ 98,6 milhões anuais. Esse montante cobria uma vasta gama de despesas, incluindo pessoal, custos de viagem, manutenção de aeronaves e equipamentos, além dos gastos operacionais e de suporte. Os resultados do estudo foram, contudo, bastante desanimadores.
O estudo concluiu que, com mais de US$ 98 milhões investidos nas Blue Angels em um único ano, a Marinha obteve menos de US$ 1 milhão em benefícios de recrutamento, o que representa um retorno sobre o investimento (ROI) negativo de alarmantes 99%. Mesmo ao considerar a “boa vontade”, que engloba benefícios econômicos para as comunidades anfitriãs dos shows aéreos, a relação custo-benefício, embora menos extrema, ainda resultou em um ROI negativo de 41%. A conclusão dos oficiais foi inequívoca: os custos superam amplamente os benefícios. Em resposta a essa disparidade, o Congresso, em 2024, exigiu que o Pentágono realizasse um novo estudo de custo-benefício, mas até o momento, as Forças Armadas não tornaram públicos quaisquer dados.
O Propósito Estratégico e o Alcance Comunitário
Apesar das somas milionárias despendidas pelas Blue Angels e Thunderbirds, que representam apenas uma parcela do programa de alcance comunitário do Pentágono, John Venable oferece uma perspectiva diferente sobre a relevância das exibições. Ele destaca que, combinadas, essas duas grandes equipes conseguem cobrir apenas cerca de 70 dos aproximadamente 325 a 350 shows aéreos que acontecem anualmente na América do Norte. É aqui que entram em cena as unidades de demonstração menores, como o Growler Airshow Team, preenchendo uma lacuna crucial.

Imagem: Reuters via cnnbrasil.com.br
“Tanto a Força Aérea quanto a Marinha valorizam muito os locais menores que não conseguem receber um grande time de jatos, e é por isso que times como o EA-18G Growler Demonstration Team existem”, afirmou Venable. Ele explicou que os serviços militares criaram pequenas equipes de demonstração que podem atender a essas comunidades que, de outra forma, não teriam a oportunidade de testemunhar voos militares. Essas exibições servem como um “tecido conectivo” entre a população e as forças armadas, proporcionando reconhecimento pelo trabalho dos militares.
Venable conclui que, embora os Thunderbirds pudessem estar no programa de Mountain Home, as Forças Armadas ocasionalmente adicionam equipes de demonstração menores, como os Growlers, quando a agenda permite. Para o Pentágono, as demonstrações aéreas são uma ferramenta valiosa para a comunicação e o engajamento público, parte de suas estratégias mais amplas de defesa e relações públicas, conforme detalhado por diversas fontes, incluindo o próprio Departamento de Defesa dos EUA, que frequentemente discute a importância da interação cívico-militar em suas publicações oficiais e discursos.
Os Perigos Inerentes às Exibições Aéreas
Seja com as equipes de demonstração em tempo integral ou com as equipes menores, como os Growlers, as operações em shows aéreos são intrinsecamente arriscadas. As aeronaves voam em formações apertadas, próximas umas das outras e do solo, enquanto se deslocam a centenas de quilômetros por hora. Essa combinação de alta velocidade, baixa altitude e proximidade aumenta exponencialmente a margem para erros e acidentes.
A história dos shows aéreos está marcada por acidentes fatais. Um dos mais infames é o “Diamond Crash” de 1982, no Arizona, quando quatro pilotos dos Thunderbirds morreram durante um voo de treinamento enquanto se preparavam para a temporada de shows subsequente. Em 1994, um bombardeiro B-52 caiu durante um voo de treinamento para um air show no estado de Washington; a investigação revelou que o piloto tentou manobras perigosas e inadequadas para uma aeronave de oito motores. Mais recentemente, um major da Força Aérea perdeu a vida durante uma sessão de treinamento em 2018, e em 2016, um piloto das Blue Angels faleceu em um acidente antes de um show no Tennessee.
Apesar dos perigos evidentes e dos dados pouco favoráveis do estudo de 2012, Venable defende que os militares consideram as demonstrações aéreas como algo que vale o risco. “A maioria (das pessoas) não consegue ver ou subestima muito os benefícios para as relações públicas e o recrutamento, mas ambos são consideráveis”, disse ele. Venable explica que os shows aéreos têm o poder de atrair dezenas ou até centenas de milhares de espectadores em um único fim de semana, oferecendo uma oportunidade única de conectar a comunidade com as forças armadas e de reconhecer o trabalho árduo dos militares. “O verdadeiro propósito de um show aéreo militar é dar às pessoas uma noção da precisão e do profissionalismo dos militares a pessoas que, de outra forma, não teriam a oportunidade de vê-los e, em alguns poucos especiais, despertar o desejo de servir”, complementou o pesquisador, enfatizando o valor motivacional e de imagem dessas exibições.
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Em suma, a questão do custo-benefício dos shows aéreos da Marinha dos EUA permanece complexa. Embora os números de um estudo de 2012 apontem para um retorno sobre o investimento negativo, especialmente no recrutamento, especialistas como John Venable argumentam que os benefícios intangíveis em relações públicas e conexão comunitária são significativos. A recente colisão dos jatos Growler serve como um lembrete vívido dos riscos inerentes, mas o Pentágono continua a ver valor nessas exibições como uma ponte entre a sociedade civil e suas forças armadas. Para aprofundar a compreensão sobre os orçamentos militares e as políticas de defesa, explore mais artigos em nossa editoria de Política e mantenha-se informado sobre os desafios e estratégias que moldam o cenário global.
Crédito da Imagem: Henk Zuurbier/AP via CNN Newsource







