A montagem Grupo Galpão: ‘(Um) Ensaio sobre a Cegueira’, encenada pelo renomado Grupo Galpão, traz aos palcos uma profunda reflexão sobre a civilidade e a coexistência humana. Sob a direção de Rodrigo Portela, a adaptação do clássico romance de José Saramago transcende a mera distopia, propondo uma imersão na capacidade de empatia e responsabilidade mútua, mesmo em cenários de extrema adversidade e luta pela sobrevivência.
O espetáculo se destaca pela sua abordagem inovadora e participativa. Catorze espectadores, por sessão, são convidados a assumir o papel de “figurantes” por meio de um ingresso-experiência, sendo vendados no palco. Eles são integrados à narrativa de uma misteriosa epidemia que priva os habitantes de uma cidade da visão e os confina em um manicômio. A condução desses participantes pelos nove atores do elenco é marcada por uma notável delicadeza, oferecendo instruções, amparo e conforto em meio ao caos simulado.
Grupo Galpão: ‘(Um) Ensaio sobre a Cegueira’ em São Paulo
A experiência cênica de Grupo Galpão: ‘(Um) Ensaio sobre a Cegueira’ é concebida no estilo do teatro épico. Os artistas da trupe mineira não apenas narram a história, mas também constroem e desconstroem o cenário em tempo real, manipulam a iluminação, executam a trilha sonora ao vivo e guiam os figurantes em uma jornada imersiva e comovente. Esse formato dinâmico, que se assemelha a um ensaio contínuo entre atores que formulam a fábula de Saramago, assegura que cada apresentação possua nuances únicas, dada a constante mudança nos participantes.
O ator Eduardo Moreira, que interpreta o médico que perde a visão, comenta sobre a natureza performática do espetáculo, afirmando que “cada dia é uma coisa” diferente. Essa variabilidade é vivida intensamente pelo elenco, que se adapta às reações e presenças distintas dos figurantes. Em uma das apresentações acompanhadas pela reportagem, observou-se o desalento de uma jovem mulher, prontamente consolada por uma das atrizes, e um homem mais velho que, perdido no cenário, foi socorrido pelos artistas, exemplificando a atenção constante exigida dos atores.
Inês Peixoto, intérprete da Mulher do Primeiro Cego, descreve a intensidade do processo: “Temos que ficar muito atentos, é uma loucura. Mas é uma loucura muito boa. Temos aprendido muito”. A encenação intencionalmente evoca o ato teatral, dependendo amplamente da imaginação do público para construir a narrativa. “Nada é muito revelado”, acrescenta Moreira, enfatizando a sutileza com que temas complexos são abordados.
Um dos momentos mais impactantes da peça é a representação de uma cena de estupro, que não é explícita, mas culmina em uma emocionante reação de união e solidariedade feminina, provocando lágrimas na plateia. A temporada atual do espetáculo em São Paulo acontece até o dia 14 de dezembro, no Sesc 24 de Maio. Antes da capital paulista, a peça, que teve sua estreia em Belo Horizonte, já percorreu cidades como Porto Alegre, Rio de Janeiro, Santo André e Uberlândia, colecionando elogios e impactando públicos diversos.
A obra original, o célebre ‘Ensaio sobre a Cegueira’ de José Saramago, cujas profundas reflexões podem ser aprofundadas no site da Fundação Saramago, serve como alicerce para essa aclamada montagem teatral, que atualiza a fábula da “cegueira branca” para o contexto contemporâneo. Essa cegueira, descrita por Saramago como moral, impede as pessoas de enxergar o outro e fomenta o egoísmo. No espetáculo, essa atualização se manifesta, por exemplo, na repetição dos avisos para o público desligar os celulares, incentivando a atenção plena ao que acontece no palco e ao seu redor.
Fernanda Vianna, que interpreta A Mulher que Vê, destaca a relevância social da peça: “Hoje em dia, as pessoas cada vez mais se acomodam em suas bolhas e param de ver o resto. Vemos guerras, o genocídio na Palestina, a desigualdade no nosso país, a chacina. Tem centenas de pessoas mortas ali e é mais fácil não ver”. Sua personagem, que mantém a compaixão, simboliza a capacidade de compreender o próximo, e a atriz celebra que essa voz venha de uma mulher, reconhecendo a capacidade feminina de acolhimento e afeto.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
A colaboração entre o diretor Rodrigo Portela e o Grupo Galpão teve início com uma visita de Portela à sede da trupe em Belo Horizonte. Após alinhar as agendas, um intenso processo de encenação foi iniciado, incluindo um extenso trabalho com Federico Puppi, diretor musical da montagem. Os atores participaram de workshops com Puppi para a criação da trilha sonora original, composta por dez músicas. Além disso, exercícios sobre a dinâmica do “ator-formulador” foram fundamentais no processo criativo, permitindo que os artistas estivessem dentro da história, narrando-a, e, simultaneamente, pudessem expressar opiniões e ideias.
A trupe desenvolveu uma estrutura fixa para a interação com os figurantes, contando com a ajuda de amigos para treinar a condução dos participantes amadores, o que proporcionou mais segurança durante as performances. Um homem cego também ofereceu valiosos ensinamentos aos artistas sobre a melhor forma de guiar uma pessoa sem visão. Inês Peixoto enfatiza a dedicação: “A gente se preparou muito. Mas cada noite é uma noite, uma química que acontece ao vivo. Cada corpo que entra, é uma energia. Essa é a beleza do teatro”.
Portela, descrito por Inês Peixoto como um diretor atento às “fagulhas criativas”, desafiou o grupo a transitar entre os estados dramático e épico. A procura pelos ingressos para a temporada tem sido tão intensa que todas as sessões estão esgotadas. No entanto, o público ainda forma filas na tentativa de conseguir eventuais sobras, e muitos conseguem. Mesmo em um cenário que expõe as piores facetas da humanidade, a peça “(Um) Ensaio sobre a Cegueira” termina com um sutil, mas presente, fio de esperança, reforçando a crença na capacidade de superação e humanidade.
A peça permanece em cartaz até 14 de dezembro, com sessões de quinta a sábado às 19h e domingos às 18h, no Sesc 24 de Maio. Os valores dos ingressos são R$70 (inteira), R$35 (meia) e R$21 (credencial Sesc), com classificação indicativa de 16 anos. A autoria e direção são de Rodrigo Portella, e o elenco é composto por Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones.
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O espetáculo do Grupo Galpão em São Paulo é um convite irrecusável à reflexão sobre a nossa própria “cegueira” moral e a urgência de uma maior empatia e responsabilidade social. Para continuar explorando análises aprofundadas sobre cultura e sociedade, visite nossa seção de Análises e mantenha-se conectado com o que há de mais relevante no cenário cultural e noticioso.
Crédito da imagem: Guto Muniz/Divulgação







