A IA na Indústria da Beleza: Revolução na Criação de Produtos está redefinindo o futuro dos cosméticos e fragrâncias. Empresas líderes no setor, como o Grupo Boticário, estão integrando a inteligência artificial em suas estratégias de pesquisa e desenvolvimento para inovar e atender de forma mais precisa às demandas dos consumidores. Essa transformação não apenas otimiza processos, mas também impulsiona a criação de produtos mais personalizados e eficientes, marcando uma nova era para o segmento de cuidados pessoais.
A jornada do Grupo Boticário com a IA começou notavelmente em maio de 2019, quando a empresa lançou perfumes pioneiros auxiliados por essa tecnologia. Para o desenvolvimento das fragrâncias EGEO, nas edições On You e On Me, a gigante brasileira implementou o sistema Phylira. Este foi um marco, fruto de uma colaboração entre a IBM e a alemã Symrise, especializada em fornecimento de fragrâncias. O Phylira foi alimentado com um vasto conjunto de dados, incluindo fórmulas, ingredientes históricos da perfumaria e informações sobre a aceitação do consumidor.
No entanto, os primeiros passos no uso da inteligência artificial no setor de beleza não foram isentos de desafios. Gustavo Dieamant, diretor de P&D do Grupo Boticário, relembrou que, embora o lançamento dos perfumes EGEO tenha alcançado grande repercussão na mídia, não obteve o mesmo êxito em volume de vendas. Ele atribuiu esse cenário ao estágio inicial da aplicação da ferramenta, onde a IA foi seguida “sem ouvir o consumidor”. Seis anos após essa experiência inicial, o mercado viu o lançamento do perfume Floratta Red Passion, também com o suporte da inteligência artificial, mas com uma abordagem mais refinada.
IA na Indústria da Beleza: Revolução na Criação de Produtos
A diferença crucial no desenvolvimento do Floratta Red Passion reside na utilização da tecnologia para elaborar uma combinação olfativa que se baseou na análise de comentários de mais de 50 mil consumidoras sobre perfumaria feminina. Esses dados foram mapeados por uma plataforma especializada, equipada com IA, garantindo uma resposta mais alinhada às expectativas do público. Dieamant enfatiza que, ao longo dos anos, o aperfeiçoamento no uso da ferramenta foi contínuo, e hoje a inteligência artificial está presente em múltiplas frentes, desde a concepção de novos produtos até a identificação de oportunidades de lançamentos no dinâmico mercado da beleza.
Um exemplo notável da otimização de processos é o Quantic, um modelo preditivo para desenvolvimento de produtos, que permitiu ao Boticário elevar a produtividade de seus pesquisadores em impressionantes 57%. Se, no passado, eram necessárias cerca de 70 combinações para alcançar a fórmula ideal, a inteligência artificial, munida de informações sobre o produto desejado, é agora capaz de gerar três formulações com a qualidade esperada, a partir das quais o pesquisador finaliza a versão definitiva. Outra inovação impulsionada pela IA é o batom inteligente, projetado para pessoas com mobilidade reduzida ou deficiência visual. Este projeto, atualmente em sua quinta fase, conta com um protótipo que emprega sensores avançados e algoritmos para distinguir a pele do rosto e dos lábios, garantindo uma aplicação precisa e uniforme do produto.
A adoção da inteligência artificial não é uma exclusividade da indústria da beleza. Segundo a “Pesquisa Global IA”, conduzida pela consultoria McKinsey, 72% das organizações em diversos setores já haviam adotado algum modelo de inteligência artificial no ano passado, um salto significativo em comparação com 50% em 2018. No segmento de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, essa tendência é ainda mais acentuada. Dados do “Zipdo Education Report 2025” indicam que 45% das marcas de skincare já integram IA em seus processos de P&D ou em suas formulações. Mais de 30% dos novos produtos para cuidados com a pele lançados em 2023 incluíram ingredientes ou processos fundamentados em inteligência artificial. Ariadne Morais, diretora de Inovação e Assuntos Regulatórios da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), é categórica ao afirmar que “quem não está usando já está ultrapassado”. Ela ressalta que a IA transcendeu o papel de ferramenta auxiliar, tornando-se uma parceira essencial na cocriação, no desenvolvimento de novas fórmulas, na identificação de ativos inovadores e no refinamento de formulações.
A alemã Symrise, renomada fornecedora de fragrâncias e aromas para gigantes como Unilever, Boticário e Natura, mantém uma equipe global dedicada exclusivamente ao desenvolvimento de soluções de inteligência artificial. Laís Aragon, gerente sênior de consumo e market insights para a América Latina na Symrise, explica que a tecnologia, por meio do cruzamento de dados, permite criar formulações que se aproximam das demandas dos usuários. A IA atua como uma aliada no processo, ajudando a encontrar as maneiras mais eficazes de entregar a melhor solução ao consumidor, sem, no entanto, ser uma ferramenta autônoma. O desafio, segundo Aragon, é harmonizar a inteligência artificial com o conhecimento específico e quase artesanal dos perfumistas, um caminho que ainda está em aprendizado.

Imagem: valor.globo.com
Com a hiperpersonalização ganhando destaque crescente, a aplicação da inteligência artificial para desenvolver produtos focados em nichos específicos tem se consolidado como uma estratégia vital na indústria da beleza. Embora haja muita discussão sobre personalização, Marcela Andrade, gerente de projetos da Gouvêa Consulting, observa que o que se entrega atualmente ainda se limita, em grande parte, a recomendações, e não a produtos genuinamente personalizados. A meta é, com o auxílio da IA, desenvolver algo que se aproxime o máximo possível do ideal do consumidor.
Na visão de Romulo Zamberlan, diretor de pesquisa avançada da Natura, o maior desafio na aplicação da inteligência artificial não reside na tecnologia em si, mas na velocidade de transformação que a ferramenta impõe. Essa velocidade exige uma adaptação constante do modelo mental das equipes. No contexto de pesquisa, biodiversidade amazônica, dados ômicos (informações biológicas de larga escala), bioinformática e segurança de ingredientes, a Natura utiliza modelos de IA extremamente calibrados, robustas bases de dados e equipes multidisciplinares capacitadas a interpretar resultados com rigor científico. Zamberlan aponta que outro ponto crítico é garantir que a aceleração proporcionada pela IA não comprometa as exigências regulatórias e de segurança, mantendo o foco primordial no bem-estar humano e no respeito à natureza. Em 2024, a Natura foi reconhecida no IFSCC, o maior congresso científico da indústria cosmética global, por um artigo sobre seu modelo preditivo de segurança e eficácia de bioingredientes, desenvolvido com inteligência artificial. Essa tecnologia expande a capacidade da empresa de analisar milhares de combinações de ingredientes, prever efeitos biológicos, otimizar fórmulas e fragrâncias, e estudar características da pele, cabelo e microbiota com maior precisão. Os próximos passos incluem aprofundar a integração entre IA, ciências ômicas e bioinformática para ampliar a compreensão da biodiversidade e traduzi-la em tecnologias cosméticas regenerativas.
Fábio Cahen, diretor do negócio de cuidados pessoais da Basf para a América do Sul, destaca as inúmeras oportunidades que a IA oferece no setor. A capacidade de analisar vastos volumes de dados confere maior agilidade na identificação de novos ingredientes, tendências de mercado e no desenvolvimento de formulações inovadoras. A prototipagem rápida e eficiente é outra frente promissora, pois encurta o tempo entre a concepção e o lançamento de produtos, além de promover soluções mais sustentáveis. Foi com a aplicação da inteligência artificial que a Basf desenvolveu o PeptAlde 4.0, um bioativo de peptídeos naturais que contribui para a restauração da saúde do cabelo e da pele. Cahen acrescenta que a empresa disponibiliza aos seus clientes ferramentas digitais que utilizam IA para acelerar e otimizar o desenvolvimento de cosméticos. Um exemplo é o Emollient Maestro, que emprega inteligência artificial para calcular misturas ideais de emolientes, garantindo melhor desempenho sensorial e sustentabilidade. A ferramenta também sugere substituições para emolientes controversos, apoiando a criação de formulações mais limpas e alinhadas às exigências do mercado atual.
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A inteligência artificial transformou radicalmente a indústria da beleza, de um mero auxiliar a uma parceira estratégica na cocriação e inovação. Desde o aprimoramento da produtividade em P&D até a personalização de produtos e a garantia de segurança e sustentabilidade, a IA está pavimentando o caminho para um futuro mais eficiente e customizado. Explore mais sobre as tendências de inovação tecnológica e o impacto da inteligência artificial em diferentes setores nesta editoria.
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