A organização internacional Human Rights Watch (HRW) publicou nesta quinta-feira (20) um relatório contundente, acusando Israel de crimes de guerra e crimes contra a humanidade na Cisjordânia. As denúncias referem-se à expulsão de dezenas de milhares de palestinos de três campos de refugiados no território ocupado, evento que teria ocorrido no início de 2025.
O documento, intitulado “Todos os Meus Sonhos Foram Apagados”, detalha as alegadas violações e faz um apelo urgente por ações internacionais para responsabilizar as autoridades israelenses. O relatório também busca prevenir a reincidência de abusos contra a população civil. A HRW estima que aproximadamente 32 mil moradores dos campos de Jenin, Tulkarm e Nur Shams foram forçados a se deslocar pelas forças de Israel durante a “Operação Muro de Ferro”, realizada entre janeiro e fevereiro do mesmo ano.
Israel Acusado de Crimes de Guerra na Cisjordânia por HRW
De acordo com o relatório de 105 páginas, os palestinos deslocados foram impedidos de retornar às suas residências, e centenas de casas foram demolidas no processo. Em entrevista à Reuters na quarta-feira (19), Milena Ansari, pesquisadora da Human Rights Watch envolvida na elaboração do estudo, afirmou: “Dez meses após o deslocamento, nenhuma das famílias residentes conseguiu voltar para suas casas”. Em resposta, o exército israelense, em comunicado à Reuters, declarou na mesma quarta-feira que a demolição de infraestrutura civil era necessária para evitar seu uso por militantes, mas não especificou uma data para o retorno dos moradores.
Deslocamento Forçado e Violações do Direito Internacional
As Convenções de Genebra, pilares do direito humanitário internacional, proíbem expressamente o deslocamento de civis em territórios ocupados, exceto em situações temporárias por razões militares imperativas ou para garantir a segurança da própria população. A Human Rights Watch argumenta que altos funcionários responsáveis por tais ações devem ser processados por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, dada a natureza do deslocamento permanente e generalizado. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) oferece ampla documentação sobre as Convenções de Genebra e seus protocolos, que estabelecem as bases para a proteção de civis em conflitos.
O relatório detalha como soldados israelenses teriam invadido residências, saqueado propriedades e emitido ordens de evacuação por meio de alto-falantes instalados em drones. Moradores relataram que tratores demoliam edifícios enquanto fugiam, e as forças israelenses não teriam oferecido abrigo ou qualquer tipo de assistência, forçando as famílias a procurar refúgio em casas de parentes, mesquitas, escolas e instituições de caridade. Hisham Abu Tabeekh, um dos expulsos do campo de refugiados de Jenin, desabafou à Reuters que sua família não conseguiu levar nada consigo. “Estamos falando de não ter comida, bebida, remédios, despesas… estamos vivendo uma vida muito difícil”, lamentou Tabeekh.
Metodologia da Investigação e Escala da Destruição
Para a elaboração do relatório, a Human Rights Watch entrevistou 31 palestinos deslocados dos três campos de refugiados. A equipe de investigação também analisou imagens de satélite, ordens de demolição e vídeos que foram verificados para comprovar as alegações. Os resultados da pesquisa indicam que mais de 850 estruturas foram destruídas ou severamente danificadas nos campos. Uma avaliação prévia da Organização das Nações Unidas (ONU) havia estimado um número ainda maior, com cerca de 1.460 edifícios afetados. Esses campos, estabelecidos na década de 1950, foram criados para abrigar palestinos deslocados com a fundação de Israel em 1948, e desde então abrigam gerações de refugiados.
Em sua defesa, autoridades israelenses afirmaram em resposta à HRW que a operação teve como alvo o que classificaram como “elementos terroristas”. No entanto, o relatório da Human Rights Watch destaca que não foi apresentada nenhuma justificativa convincente para as expulsões em massa ou para a proibição do retorno dos moradores. A HRW sustenta que essas expulsões, realizadas enquanto a atenção global estava majoritariamente voltada para Gaza, configuram parte de crimes contra a humanidade, incluindo apartheid e perseguição.

Imagem: Getty via cnnbrasil.com.br
Aumento da Violência na Cisjordânia e Apelos por Justiça
O contexto de violência na Cisjordânia tem se intensificado significativamente desde os ataques liderados pelo Hamas contra o sul de Israel em 7 de outubro de 2023. Desde essa data, as forças israelenses teriam matado quase mil palestinos no território, além de ampliar as detenções sem julgamento, demolir casas e acelerar a construção de assentamentos. O relatório também aponta para um aumento da violência por parte de colonos e da tortura de detidos. Dados da ONU revelam que a violência dos colonos atingiu seu pico em outubro, com pelo menos 264 ataques contra palestinos, o maior número mensal registrado desde o início do monitoramento em 2006.
Israel invoca laços históricos e bíblicos com a Cisjordânia, território capturado na guerra de 1967, e argumenta que os assentamentos oferecem profundidade estratégica e segurança. Contudo, a maior parte da comunidade internacional considera todos os assentamentos ilegais sob o direito internacional. Israel, por sua vez, rejeita essa visão, classificando a Cisjordânia como um território “disputado” e não “ocupado”.
Diante desse cenário, a Human Rights Watch instou governos de todo o mundo a impor sanções direcionadas a autoridades e comandantes israelenses, suspender a venda de armas e benefícios comerciais, proibir a entrada de produtos originários de assentamentos e cumprir os mandados emitidos pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). A organização descreveu as expulsões como limpeza étnica, um termo que, embora não seja estritamente jurídico, é amplamente utilizado para descrever a remoção ilegal de uma população étnica ou religiosa de uma área específica por outro grupo.
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Este relatório da Human Rights Watch lança uma luz crítica sobre as ações em curso na Cisjordânia, levantando sérias questões sobre o respeito ao direito internacional humanitário e os direitos dos palestinos. A comunidade internacional enfrenta agora o desafio de avaliar as evidências apresentadas e determinar as ações apropriadas. Continue acompanhando nossas notícias na editoria de Política para mais análises e atualizações sobre os conflitos regionais e as implicações geopolíticas.
Crédito da imagem: Reuters







