Novo Tratamento para Choque Séptico Reduz Tempo em UTI

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Um novo protocolo de tratamento para choque séptico, condição médica grave que afeta um número significativo de pacientes globalmente, demonstrou ser eficaz na redução do tempo de permanência em suporte vital em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Esta abordagem inovadora utiliza um teste de enchimento capilar – uma técnica simples que avalia o tempo de retorno da cor à ponta do dedo após leve pressão – como guia para otimizar as intervenções terapêuticas, prometendo mudar o panorama do cuidado intensivo.

O choque séptico representa uma emergência médica crítica, desencadeada por uma infecção que provoca uma reação inflamatória sistêmica e descontrolada. Essa cascata de eventos pode levar à falência múltipla de órgãos e a uma queda perigosa da pressão arterial, resultando em uma taxa de mortalidade que se aproxima de 40% dos casos. No Brasil, estimativas indicam a ocorrência de aproximadamente 400 mil casos anuais, sublinhando a urgência por métodos de tratamento mais eficazes e ágeis.

A pesquisa que valida este avanço, nomeada Andromeda-Shock-2, teve seus resultados divulgados no influente periódico JAMA. O estudo comparou o protocolo personalizado, fundamentado no tempo de enchimento capilar, ao tratamento convencional, e os dados revelam uma diminuição substancial na necessidade de vasopressores (medicamentos que elevam a pressão arterial), ventilação mecânica e hemodiálise. A relevância deste trabalho é reforçada pela sua abrangência, envolvendo 1.467 pacientes em 86 UTIs espalhadas por 19 países, incluindo o Brasil.

Novo Tratamento para Choque Séptico Reduz Tempo em UTI

O intensivista Alexandre Biasi, diretor de pesquisa e ensino do Hcor e um dos principais pesquisadores brasileiros envolvidos no estudo, destacou a importância dos achados. “Há mais de uma década não tínhamos evidências de um protocolo que pudesse mudar o desfecho clínico de pacientes com choque séptico”, explicou Biasi. O Hcor foi fundamental, sendo responsável pelo gerenciamento de dados e pela análise estatística dos resultados globais da pesquisa, cuja coordenação geral coube à Pontificia Universidad Católica de Chile. A publicação completa da pesquisa está disponível para consulta no JAMA Network.

O protocolo de tratamento foi meticulosamente desenhado para operar em duas etapas distintas. Inicialmente, os médicos avaliam a pressão arterial do paciente e, conforme a necessidade, administram fluidos ou ajustam a dosagem de medicamentos vasopressores. Caso o tempo de enchimento capilar não retorne à normalidade após essas primeiras intervenções, a equipe avança para a segunda fase. Esta etapa inclui exames de ecocardiografia para analisar a função cardíaca e a administração de dobutamina, um fármaco que visa fortalecer a contração do coração.

Os resultados globais do novo protocolo superaram o tratamento padrão em 16%, considerando uma ampla gama de desfechos clínicos. Mais especificamente, os pacientes que seguiram a nova abordagem desfrutaram, em média, de 16,5 dias livres de suporte vital nas primeiras quatro semanas, um aumento significativo em comparação aos 15,4 dias observados no grupo de tratamento convencional. Adicionalmente, a normalização do tempo de enchimento capilar nas primeiras seis horas foi atingida por 85,9% dos pacientes no grupo do protocolo, contrastando com 61,7% no grupo de tratamento padrão. Houve também uma redução no volume de fluidos intravenosos administrados (595 mL versus 847 mL), um achado crucial, visto que o excesso de fluidos pode agravar o quadro clínico do paciente com choque séptico.

Uma das grandes vantagens do teste de enchimento capilar reside em sua praticidade e rapidez, fornecendo resultados imediatos. Em contrapartida, o método tradicional para monitoramento da perfusão de órgãos se baseia na medição de lactato, um exame que pode levar até duas horas para ter seus resultados liberados pelo laboratório. Biasi elucidou a eficácia do teste de dedo: “É um teste que responde de forma rápida às intervenções terapêuticas. Se você não estiver com a perfusão adequada dos órgãos, o enchimento capilar fica lento. À medida que você melhora a perfusão, melhora a oxigenação dos tecidos, e o enchimento capilar começa a normalizar.”

O especialista detalhou ainda as limitações do exame de lactato. “Quando não há oxigênio suficiente chegando aos órgãos, a glicose não consegue ser transformada adequadamente em energia, e o lactato se acumula. O problema é que o lactato tem limitações: ele demora para responder ao tratamento e existem outras condições que podem aumentá-lo além da falta de oxigênio”, explicou. Essa particularidade do lactato pode atrasar decisões cruciais em um momento em que cada minuto é vital para o paciente.

As primeiras seis horas após o diagnóstico de choque séptico são universalmente reconhecidas como o período mais crítico, no qual as intervenções médicas têm o maior potencial de influenciar positivamente a evolução clínica do paciente. A agilidade e precisão que o novo protocolo oferece são cruciais justamente nessa janela de oportunidade. Outro ponto promissor é a simplicidade da abordagem: ela não exige tecnologias complexas, baseando-se em avaliações clínicas básicas que podem ser realizadas à beira do leito, tornando-o acessível a uma gama maior de instituições de saúde.

Os pesquisadores têm grande otimismo quanto ao impacto desse estudo nas práticas médicas. Além da publicação no JAMA, o trabalho foi apresentado em eventos de grande prestígio, como o Congresso da Sociedade Europeia de Terapia Intensiva, em Munique, Alemanha, e o Congresso Brasileiro de Medicina Intensiva. Biasi projeta que esses resultados “certamente, isso vai influenciar as novas diretrizes de tratamento. Várias unidades de terapia intensiva e grupos locais já podem decidir mudar seus próprios protocolos”, indicando uma rápida adoção.

“Nossa missão agora é tirar isso do papel e levar para a vida real das pessoas que têm choque séptico. O tempo entre publicar algo novo e as pessoas incorporarem na prática costuma ser de anos. Queremos acelerar esse processo, especialmente aqui no Brasil, onde temos uma incidência alta de sepse”, afirmou Biasi. O Hcor planeja implementar o novo protocolo em suas unidades nas próximas semanas, com a expectativa de que outras instituições de saúde no Brasil sigam o exemplo, democratizando o acesso a um tratamento mais eficaz para o choque séptico.

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Este avanço representa uma esperança significativa para pacientes com choque séptico, oferecendo uma ferramenta de tratamento mais rápida e eficiente. A adoção generalizada deste protocolo, que combina simplicidade e evidência científica robusta, pode transformar a gestão da doença em UTIs. Continue acompanhando as novidades e análises aprofundadas sobre saúde e ciência em nossa editoria de Análises.

Crédito da Imagem: Karime Xavier – 20.ago.2025/Folhapress