O turismo no Rio de Janeiro vive um momento de efervescência, com a cidade registrando uma afluência recorde de visitantes neste verão. Desde dezembro, a cena carioca é marcada por bares e restaurantes com mesas nas calçadas, um fluxo constante em apartamentos de aluguel por temporada e multidões nos calçadões das praias, como o de Copacabana. A diversidade de sotaques ecoando pelas ruas e praias até altas horas confirma que a capital fluminense se tornou um dos destinos mais cobiçados do país.
Contudo, este cenário de grande movimentação turística também ilumina os desafios inerentes à gestão de um destino tão procurado. Especialistas, autoridades, visitantes e moradores têm sido motivados a propor uma série de medidas. O objetivo é duplo: garantir um acolhimento eficaz para quem chega e, simultaneamente, preservar a qualidade de vida e o bem-estar dos que residem no município, buscando um equilíbrio sustentável para o setor.
Turismo no Rio: Desafios e Propostas para Recorde de Visitantes
Os dados mais recentes são contundentes ao demonstrar o crescimento exponencial do fluxo de turistas, com uma notável ascensão no número de estrangeiros. Um estudo conjunto das secretarias municipais de Turismo e de Desenvolvimento Econômico projeta que a Cidade Maravilhosa deverá receber aproximadamente 5,7 milhões de visitantes, tanto nacionais quanto internacionais, ao longo deste verão. Esse volume representa um aumento de 14% em comparação com o mesmo período do ano anterior, solidificando a vocação turística do Rio e injetando um significativo impulso na economia local.
Apesar do expressivo aumento, especialistas e autoridades garantem que o Rio de Janeiro ainda está longe de vivenciar o fenômeno do “hiperturismo”, uma sobrecarga turística observada em metrópoles europeias como Barcelona, na Espanha, e Roma, na Itália. No entanto, as dificuldades percebidas nos bairros cariocas mais disputados durante os picos de visitação têm catalisado a busca por soluções inovadoras. Entre as propostas, destacam-se o desenvolvimento de tecnologias, a implementação de alterações no funcionamento dos transportes públicos, a adoção de ações de ordenamento urbano mais eficazes, a melhoria contínua da segurança e, inclusive, a reinstalação dos postos avançados da Riotur na Avenida Atlântica. Esses pontos, inaugurados em janeiro de 2024 nos postos de salvamento 2 e 5, foram lamentavelmente fechados em abril do ano anterior. Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, complementa a crítica, observando que o posto da Riotur na Avenida Princesa Isabel não opera aos domingos. Ele também aponta deficiências na sinalização turística e na fiscalização de ambulantes ilegais, enfatizando a “falta de trabalho de inteligência” e a consequente “corrida de gato e rato entre guardas e camelôs”.
A percepção dos próprios usuários e moradores reforça a necessidade de aprimoramentos. Morgana Freitas, residente de Niterói que frequentemente visita Copacabana aos domingos, sugere uma ampliação do horário da área de lazer na orla até as 21h, devido à intensa lotação. Em Ipanema, Ana Luiza Folly, uma moradora, compreende o magnetismo que o bairro exerce sobre os turistas, mas aponta incômodos como o grande volume de bicicletas nas calçadas e a falta de espaço para pedestres devido aos bares abarrotados, defendendo a necessidade de maior ordenamento e educação.
Marcelo Freixo, presidente da Embratur, sublinha que o turismo está longe de ser um problema para o Brasil, destacando sua relevância econômica: “O turismo internacional é responsável por 8% do PIB brasileiro e pode crescer muito. Acabamos de ter um aumento que nunca se contabilizou. Em 2025, chegamos a 9,3 milhões estrangeiros no Brasil.” Para o contexto do Rio de Janeiro, Freixo identifica um desafio primordial: a descentralização do fluxo turístico. A ideia não é afastar os visitantes da Zona Sul, mas sim expandir os roteiros para outras regiões da cidade, e até mesmo para o interior do estado, visando gerar mais oportunidades econômicas e prolongar a estadia dos turistas.
A tese de que o Rio não enfrenta um overtourism é corroborada por especialistas como Osiris Marques, pesquisador do Observatório do Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo (ANPTUR), e Felipe Felix, professor de Turismo do Cefet. Eles citam o exemplo de Barcelona, que em 2024 recebeu 15,6 milhões de turistas, sendo 12,9 milhões internacionais, números muito superiores aos do Rio. Marques ressalta que as imagens de praias lotadas no verão nem sempre são exclusividade de turistas, uma vez que o calor intenso leva mais pessoas à praia, incluindo muitos moradores da Baixada Fluminense e de outros municípios da Região Metropolitana.
Ainda que o Rio não esteja no patamar de hiperturismo, o número expressivo de visitantes, conforme Felix, sinaliza a urgência de certas iniciativas, especialmente soluções tecnológicas. Uma ideia promissora seria a criação de um aplicativo que forneça, em tempo real, a dimensão do volume de visitação em atrações turísticas específicas, permitindo que os turistas planejem seus roteiros de forma mais eficiente. Ele também menciona um projeto implementado em Dubrovnik, na Croácia – um sistema de monitoramento do fluxo de visitantes que subsidia o poder público na identificação de áreas de pressão turística, facilitando a adoção de medidas preventivas e corretivas.
No que tange à mobilidade, Felix sugere a implementação de esquemas especiais para metrô e trens durante fins de semana ensolarados e feriados de verão, a fim de mitigar aglomerações. Para esses dias, ele advoga por um plano de contingência para a limpeza urbana. Além disso, o professor considera fundamental a regulamentação do aluguel por temporada, abordando aspectos como a segurança dos moradores, a definição de normas de convivência para os visitantes em edifícios residenciais e a geração de receita para o município. Ele pondera que, “Hoje, não vejo necessidade de medidas radicais no Rio”, mas faz a ressalva de que em Barcelona já se discute a eliminação do Airbnb até 2028.

Imagem: Rafael Catarcione via infomoney.com.br
Em alguns dos mais emblemáticos cartões-postais da cidade, ações já estão em fase de planejamento ou execução. Daniela Maia, secretária municipal de Turismo, confirmou para março o início das obras do projeto para a Escadaria Selarón, que compreende o fechamento e melhorias na Rua Teotônio Regatas e em parte da Rua Joaquim Silva, na Lapa. Esse local atraiu mais de 1,5 milhão de visitantes (incluindo moradores do Rio) no ano passado. O vice-prefeito Eduardo Cavaliere, por sua vez, destaca outras iniciativas da prefeitura, como a divulgação de um calendário turístico anual, estratégia que visa distribuir o fluxo de visitantes ao longo do ano, diminuindo a concentração excessiva no período de verão.
Contudo, como acontece na maioria dos grandes centros turísticos globais, situações que exigem paciência dos visitantes e moradores ainda são uma realidade. Liriel Barboza, carioca radicada em São Paulo, relatou uma experiência de espera de 50 minutos em uma fila externa e mais 10 minutos para obter uma senha para outra fila de espera, com uma previsão de uma hora para conseguir uma mesa em um café no Forte de Copacabana, em uma manhã de domingo. “Vim achando que seria café da manhã e está quase virando lanche da tarde”, brincou ela, enquanto aguardava.
Os números, no entanto, falam por si: o Rio de Janeiro continua a ser um destino prioritário nos planos de turistas de todo o mundo. Dados do Observatório do Turismo da Secretaria Municipal de Turismo revelam que, embora os visitantes nacionais ainda representem a maioria (83,1% dos 12,5 milhões que estiveram no Rio em 2025, um aumento de 10,5% em relação a 2024), o grande destaque foi o crescimento dos turistas internacionais, que saltou 44,8% entre 2024 e 2025. É possível consultar mais dados e estatísticas oficiais sobre o fluxo turístico no país através do site da Embratur, uma fonte de alta autoridade no setor.
Nesse panorama de intensa atividade, o Píer Mauá opera a todo vapor. Na temporada atual, que se estende de outubro de 2025 a abril de 2026, a previsão é de que 28 navios gigantes atraquem no local, sendo 21 deles de roteiros estrangeiros. A expectativa é que o número de visitantes por essa via atinja a marca de 240 mil, com uma estimativa de gastos de R$ 193,3 milhões na economia da cidade apenas pelos passageiros dos navios. Marcello Chagas, gerente de operações do Píer Mauá, enfatiza que uma experiência geral positiva é crucial para que o turista se sinta bem na cidade. Ele salienta que essa experiência depende tanto dos operadores de serviços turísticos quanto do governo: “Basta atender bem é um clichê que precisa ser levado a sério.” Jorge Chaves, diretor comercial e de operações da Rede Othon, compartilha dessa visão, oferecendo sua própria “receita” para a satisfação de turistas e cariocas em uma cidade movimentada: planejar os picos com antecedência, integrar mobilidade, segurança, limpeza e ordenamento urbano, e comunicar de forma eficaz o que ocorrerá em datas críticas.
Em suma, o recorde de visitantes no Rio de Janeiro reflete o apelo duradouro da cidade como um destino global. Embora as oportunidades sejam vastas, os desafios exigem uma abordagem colaborativa e estratégica entre poder público, iniciativa privada e a sociedade civil para garantir que a experiência do turismo seja benéfica para todos, impulsionando a economia e preservando a beleza e a cultura cariocas. Acompanhe mais análises e notícias sobre a economia e o desenvolvimento das grandes cidades em nossa editoria de Cidades.
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Crédito da imagem: Alexandre Macieira/Riotur






